Sabrina Noivas 86 - Borrowed One Bride

Arrebatada do altar! A noiva tinha tudo a ganhar com o casamento. O noivo herdaria uma fortuna se se casasse antes de seu trigsimo aniversrio. Ento, por qu, no dia da cerimnia, o fotgrafo raptou a noiva? Manter Bethany presa durante duas semanas, at o aniversrio de Peter, o noivo, seria suficiente. Assim, Bruce fingiu ser o fotgrafo, e foi fcil raptar a noiva. S no imaginava que Bethany roubaria seu corao!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1997. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance histrico contemporneo
 
Srie Australianos (The Australians)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Darcy, Emma	Outback Heat
	Jul-1998

Lee, Miranda	Heartthrob for Hire
	Aug-1998

Armstrong, Lindsay	Playboy Lover
	Sep-1998

Gordon, Victoria	Beguiled and Bedazzled
	Oct-1998

David, Trisha	Borrowed--One Bride
Sabrina Noivas 086 - A Noiva Raptada	Nov-1998

Stevens, Lynsey	Male for Christmas
	Dec-1998

Way, Margaret	Her Outback Man
	Jan-1999

Charlton, Ann	Baby Down Under
	Feb-1999

Kelly, Alison	Boots in the Bedroom!
Sabrina 1016- Os Opostos Se Atraem	Mar-1999

Armstrong, Lindsay	Wildcat Wife
	Apr-1999

Duke, Elizabeth	Taming a Husband
	May-1999
Lee, Miranda	Simply Irresistible
	Jun-1999

Darcy, Emma	The Marriage Risk
Julia 1177- Risco De Casamento	Feb-2001

Lee, Miranda	Marriage at a Price
	Jun-2001

Hannay, Barbara	Outback With the Boss
Julia 1126 - Em Boa Companhia	Sep-2001

Armstrong, Lindsay	A Question of Marriage
	Oct-2001

Way, Margaret	Master of Maramba
	Oct-2001

Lee, Miranda	Fugitive Bride
	Nov-2001

Way, Margaret	Outback Fire
	Dec-2001

Hannay, Barbara	Outback Baby
	Feb-2002

Hart, Jessica	Inherited: Twins!
	May-2002
Way, Margaret	Mistaken Mistress
	Sep-2002

Lee, Miranda	The Virgin Bride
	Oct-2002

Way, Margaret	Outback Angel
	Dec-2002

Hart, Jessica	The Wedding Challenge
	Feb-2003

Darcy, Emma	The Blind-Date Bride
Julia 1236 - Uma Noite Inesquecvel 	Mar-2003

Lennox, Marion	A Millionaire for Molly
	Mar-2003

Armstrong, Lindsay	His Convenient Proposal
	May-2003
Maguire, Darcy	Accidental Bride
	Jun-2003

Armstrong, Lindsay	The Unconventional Bride
Harlequin Paixo 012 -
Passos Para o Amor	Nov-2003

Marinelli, Carol	The Billionaire's Contract Bride
	Jan-2004

Lee, Miranda	The Passion Price
Harlequin Paixo 014 -
O Preo Da Paixo	Jun-2004

Way, Margaret	His Heiress Wife
	Sep-2004

Armstrong, Lindsay	The Australian's Convenient Bride
	Oct-2004

Way, Margaret	The Australian Tycoon's Proposal
	Dec-2004


       

        

       

       

       










CAPITULO I

	Deus do cu, Bethany, voc deveria ver o fotgrafo! Parece um caubi, e  lindo de morrer!  Gergia Gallagher, de catorze anos de idade, apareceu na porta e parou, estupefata, diante de Bethany, esquecendo-se por completo do fotgrafo.  Voc est maravilhosa!
	Estou?  Bethany se olhou no espelho, admirada.
Sofrera uma grande transformao, sem dvida. Bem, se Gergia a achara fabulosa, ento fizera um bom trabalho. Era a noiva que Peter queria. Cumprira sua parte no negcio, e o nico problema era...
	Sinto-me to tola, Gergia! Pareo uma boneca, com todos esses babados e essas saias fofas.
	Nada disso, Bethany. Bem, talvez fique melhor de jeans, mas no seria o caso hoje, no ?
Bethany sorriu, confiando na sinceridade da garota, que se aproximou, deu um forte abrao na prima e se afastou, para admir-la a distncia.
	Bethany, senti saudade de voc.
	Eu tambm, querida.
	Mas no o suficiente para uma visita, no ?
	Voc sabe que no tenho condies de vir  cidade com frequncia, Gergia.
A menina franziu o cenho, foi at a janela do hotel e olhou para fora. Uma balsa saa do terminal e movia-se devagar, deixando um rastro esbranquiado nas guas tranquilas da baa de Sydney. 
	Bethany, mame sempre disse que voc no vinhapara casa porque no suporta Hilda e Peter. E mame esta  certa. Peter pode ser nosso primo  mas voc sabe que ele  um cretino. Por qu, santo Deus est se casando com ele se tenho certeza de que pensa como eu?
	Gergia...
	Bem, mame tambm diz que voc tem idade suficiente para saber o que faz, mas... No consigo entender. Peter  bom de cama ou alguma coisa desse tipo?
	Gergia!
A garota ficou vermelha, parou de falar e piscou ao ouvir a voz da tia, vinda da sala de visitas. Hilda era irm da me de Gergia e da me de Bethany. Os pais de Bethany haviam morrido em um acidente de carro, e ela fora criada por Hilda.
	Bethany!  No havia como ignorar aquela voz autoritria.
	Ah, tinha esquecido, Bethany!  Gergia suspirou.  A terrvel Hilda me incumbiu de dizer-lhe que o fotgrafo est esperando. Vale a pena dar uma olhadinha nele. E melhor que Peter. Venha ver, Bethany. Olhe!
Bethany deu de ombros. A tia podia esperar um pouco. Alm disso, Gergia comeara a apreciar o sexo oposto, e seus comentrios faziam-na rir. E se havia alguma coisa que Bethany precisava nesse dia era rir.
O rapaz em questo estava curvado sobre a bagagem, no porta-malas de uma Mercedes estacionada no jardim do hotel, e tudo o que Bethany pde ver foram pernas longas e muito, muito msculas. Vestia cala de algodo, camisa de mangas curtas e um chapu de abas largas. Quem seria aquele homem?
	Gergia, temos de ir.
Mas Gergia segurou a mo de Bethany.
	No. Espere e veja. Bethany, ele  algo mais! Olhe agora que o moo vai se virar.
Ento, Bethany viu o homem se erguer, se virar e, apesar da preocupao com a hora do casamento que se aproximava, sua ateno foi despertada. Com certeza no era algum da cidade.
O rapaz teria mais ou menos trinta anos, Bethany calculou. A cor da pele era de algum que passar a vida ao ar livre, e os msculos fortes mostravam que devia se dedicar a muita atividade fsica.
Gergia olhava para o jovem, enlevada, e Bethany pde perceber que estava atrada pelo desconhecido, cujos cabelos castanhos e olhos da mesma cor tornavam-no muito atraente. O rosto era de traos marcantes e... muito diferente de Peter. Sorria para algum fora da viso das duas moas, e Bethany teve de concordar que a admirao da prima tinha fundamento.
	Que homem!  Gergia exclamou num sussurro, enquanto a prima a forava a se afastar da janela.  Bethany, voc tem de concordar...
	Voc deve estar brincando.  Bethany sorriu, voltando  realidade.  Serei uma mulher casada dentro de uma hora, e quer que eu fique aqui admirando um desconhecido e diga que ele  o mximo?
	Aquele moo  muitssimo melhor que Peter. Casar-se no a impedir de admirar o que  belo. Mame sempre diz que no importa onde uma pessoa casada tem seu apetite despertado, desde que se alimente apenas em casa. Pelo menos foi o que me falou quando encontrei uma Playboy na caixa de ferramentas de papai. Mas  claro que ela no fala isso para ele.
	Sua me  terrvel!  Bethany falou, sorrindo.  E  minha tia favorita.
	Grande escolha! Voc s tem mame e tia Hilda. Minha me sempre diz que teria gostado muito de cri-la quando sua me morreu. Deve ter sido terrvel viver com Hilda e Peter...
	Gergia!
A jovem mordeu o lbio.
	Acho que voc vai viver com Peter para sempre, e no consigo entender por qu.  Deu um ltimo olhar para o jardim do hotel e desviou toda sua ateno para a noiva.  Apenas gostaria de saber por que voc est fazendo isso, Bethany. Mame diz que deve haver razes e que no deveramos perguntar, no entanto.:. Voc no est grvida, est?
	 claro que no.  Bethany riu e apertou o brao da prima.  No seja boba.
Gergia se afastou um pouco e encarou a prima, como que para se certificar da verdade por si prpria, e pareceu satisfeita. A cintura de Bethany era to fina e a barriga to plana que no poderia abrigar um beb.
Ento o olhar de Gergia subiu, e ela arregalou os olhos.
	Bethany...
	Sim?
	A renda de seu vestido! Ele... ele...
	Ele o qu?  Bethany perguntou com inocncia, virando-se para pegar uma delicada bolsinha de veludo que pretendia carregar.
	A renda do corpete se ergueu. Sozinha!  A adolescente deu a volta para olhar a prima no fundo dos olhos.
	Bethany, voc no...
	Fale, Gergia!
	Voc no mudou nada! Est escondendo o beb a embaixo! E isso?
Bethany suspirou. Devia saber que no conseguiria enganar a prima. Os pais de Gergia e Hilda moravam a apenas dois quarteires de distncia, e, quando Bethany sara de casa, aos dezessete anos, Gergia era ainda bem nova, mas sempre fora como a sombra de Bethany, a quem adorava e conhecia bem.
	 um minsculo gamb, Gergia. Nasceu dois dias antes de a me dele ser atropelada. Nos primeiros dias, s teria chance de sobreviver se ficasse em contato com o calor e o movimento do corpo, como se estivesse na prpria bolsa marsupial da me. A garota que estava tomando conta de meus animais no quis carreg-lo, ento tive de traz-lo eu mesma.
	Mas seu vestido esconde o animalzinho com perfeio. Gergia no conseguia conter a surpresa.  Que sorte seu vestido ter renda!
	No tinha at a noite passada.  Bethany sorriu.  Eu me fingi de noiva recatada e disse  costureira que a roupa estava reveladora e provocante, e ela passou horas reformando-o, pobre mulher. No ouse contar a ningum, Gergia.
	Peter sabe que vai levar um filhote de gamb na lua-de-mel? Oh, cus, ele vai ter um ataque! E se o beb precisar se alimentar durante a cerimnia? Dir a todos que conversem um pouco enquanto o tira do meio de seus seios?
	Gergia!
	Voc  louca!  Enlaou a prima pelo brao e a levou em direo  porta.  Sempre foi, e eu a adoro por isso. Mas continuo no entendendo por que vai se casar com o horrvel Peter!
Parecia que o mundo todo esperava pela noiva.
A maior parte dos convidados era de amigos de Hilda, pensou Bethany, enquanto se submetia aos olhares observadores de todos. E haveria muito mais na igreja. Peter queria uma linda e grande cerimnia de casamento.
"Quero o melhor", ele exigira. "A maior igreja e a mais bela recepo. O fotgrafo mais renomado e o salo mais bem decorado. Desejo que nosso casamento aparea nas pginas sociais. Vamos nos casar em grande estilo, Bethany, ou nada feito."
"Nada feito pareceria bem apropriado neste momento", pensou Bethany, desolada, mas negcio era negcio, e dera a palavra a Peter.
	O fotgrafo est esperando no vestbulo!  Hilda avisou, quando Bethany apareceu, vinda do closet.
Bethany pde ver pelo rosto da tia que ela estava em um de seus piores dias de mau humor. Hilda ficara horrorizada quando Peter anunciara que iria se casar com a prima, e mal conversara com Bethany durante o curto perodo do noivado.
	O fotgrafo  um substituto, Bethany. No sei o que Peter vai dizer quando descobrir. O profissional que seu primo contratou est doente, ento veio esse sujeito... Chama-se Bruce Hallam, e nunca ouvi falar dele. Nem ao menos est vestido de maneira apropriada para uma cerimnia dessa natureza!
	Hoje em dia eles no usam esse tipo de roupa  Gergia respondeu, por trs de Bethany.  Apenas fotgrafos suburbanos costumam se vestir com trajes sociais. Os melhores fotgrafos so mais despojados. E esse me pareceu muito bem...  Olhou para a tia, desafiadora, e se afastou para ir ao encontro da me.
	Quem perguntou alguma coisa a voc, Gergia?  Hilda retrucou, mas Bethany percebeu que as palavras da garota haviam causado algum impacto.  Bem, o homem quer tirar algumas fotos suas perto da baa. Mas tem de se apressar. Precisa estar na igreja em trinta minutos, e no vai querer deixar Peter esperando. Quer que eu v com voc?
	No, obrigada, tia. Posso fazer isso sozinha. 
Sempre o fizera. O que mais seria novo para ela?
O fotgrafo esperava no vestbulo, como Hilda lhe falara. Bruce Hallam estava em um sof, recostado numa pilha de almofadas, e cumprimentou a noiva com um sorriso enquanto se levantava.
	Bethany?  Caminhou ao encontro dela, estendendo-lhe a mo.
"Esse homem poderia ser usado para transmitir confiana a noivas nervosas", concluiu Bethany ao fitar os penetrantes olhos castanhos de Bruce Hallam.
E aquele olhar a cativou.
	Sou Bruce Hallam. Prazer em conhec-la, Bethany. Est pronta para passar uns minutos tirando fotos?
	Sim.
	No h damas de honra?
	No.
	Bem, isso torna meu trabalho muito mais fcil.  Sorriu e apontou para a Mercedes estacionada no jardim.
 Eu a levarei at a baa, Bethany. Seu noivo exige o melhor, e retratos com cenrio natural so minha especialidade. Estaremos de volta a tempo de voc refazer a maquilagem antes de ir para a igreja.
Bethany levou a mo ao peito, tentando conter as batidas do corao. No era o animalzinho que precisava de segurana naquele momento. Era Bethany Lister.
	Est bem.
Em dois minutos, Bruce acomodou Bethany no banco traseiro do carro e dirigiu na direo oposta de onde se realizaria a cerimnia.
Bruce Hallam dirigia com tranquilidade, passando pela longa fila de carros estacionados em frente ao hotel, em direo da baa, e olhava para a noiva pelo retrovisor.
	Tudo bem a atrs?
	Apenas me sinto tola  Bethany balbuciou, enquanto ajeitava as saias de cetim e renda a seu redor.
	Voc precisaria de damas de honra para lhe fazer companhia. Mas no se preocupe. Est muito bonita.  Seus olhos tornaram a fit-la e revelaram a Bethany que essas palavras no eram apenas um simples cumprimento.
 Seremos rpidos, no se preocupe. Voc se sentiria melhor se tivssemos trazido sua tia conosco?
	No!  respondeu depressa, surpreendendo-se com a prpria voz.
	No se d bem com sua tia?
	No muito.
	Mas ela vai se tornar sua sogra.  Bruce Hallam sorria, compensando as palavras impertinentes com uma expresso de pesar.  Isso significa que h o pesadelo de um tringulo amoroso se aproximando?
"Significaria se esse casamento fosse real." Bethany tentava imaginar Hilda como sogra. Que Deus a ajudasse se fosse o caso.
	Darei um jeito nisso, no momento oportuno, Bruce.
	Tenho certeza de que dar. Voc e seu noivo so primos, ento?
	Certo.
	Sempre foram muito unidos?
"Que homem curioso!"
	Sim ---No poderia responder mais nada.
	Sua tia parece ter tomado a frente de todos os detalhes para o dia de hoje... Seus pais no aprovam o casamento?
	Eles esto mortos. Passei a viver com Hilda e Peter desde que era criana at ir para a faculdade.
	Ento no vive mais com eles?
	No.
Era apenas uma conversao que intencionava, por parte do fotgrafo, fazer Bethany relaxar um pouco. Por que ento sentia-se como se estivesse sendo interrogada?
	Onde voc mora, Bethany?
	Vou morar com Peter quando nos casarmos.  A sensao de que estava sozinha andando num campo minado a estava aterrorizando.
	Ento no vo morar com sua sogra?
	No!  O pensamento era to terrvel quanto a ideia de estar casada com Peter.
	Ela  uma mulher de forte personalidade.
	Sim...
Respostas monossilbicas eram mais seguras. Os olhos de Bruce eram perscrutadores demais.
Bethany ps a mo no pequeno saco de couro, mas o bichinho estava quieto.
"Tomara que durma por muito tempo." Se Gergia pudera perceber o tecido mexer sozinho, Bruce tambm poderia.
O silncio parecia quase um mau agouro. Bethany olhou para a nuca do fotgrafo. Sentiu alguma coisa que no conseguia identificar, e mais uma vez a palavra "perigoso" surgiu em sua mente.
Estava sendo tola. Nervos de uma noiva prestes a subir no altar.
	Parece difcil e cansativo ser fotgrafo  Bethany conseguiu falar para quebrar o silncio constrangedor, enquanto percorriam o breve caminho at a baa.
Bruce meneou a cabea.
	Nem tanto. Mas no pense nisso, Bethany. Hoje  o seu dia. Voc s ter essa chance de tirar fotografias vestida de noiva. Quer dizer, se pretende ficar casada para sempre.
	Que tipo de fotos voc pretende tirar?  Bethany perguntou, ignorando o comentrio dele.
	Fotografias no barco.
	Barco...
	Um amigo deixa que eu use seu iate para tirar retratos de casamento.  um timo cenrio.  Achou graa ao ver o olhar espantado de Bethany.  Ei, no nos afastaremos da praia! Sou um marinheiro de gua doce, no se preocupe.
	Voc no poderia fotografar no quebra-mar para acabar logo com isso?
 
	Mas eu sou um artista! E tenho temperamento de artista. Quer que lhe d uma demonstrao do meu gnio? Sugira que eu tire apenas alguns instantneos em vez de boas fotos!
	Sinto muito.  Bethany no pde deixar de rir.
	Espero que sim. Seja boazinha para o gentil homem da mquina fotogrfica.
	Tentarei.  Os nervos de Bethany pareciam relaxar.
A alegria de Bruce Hallam era contagiosa.  Voc quer mesmo que eu suba num barco de verdade?
	Se quiser evitar meu acesso de raiva... Desejo fotograf-la a bordo do iate com o olhar perdido na imensido do oceano. Pretendo captar em sua expresso e todo o seu amor por Peter, a ansiedade da espera para tornar-se sua esposa e a certeza de que ele enfrentaria todos os perigos para chegar at sua noiva.
Bethany no pde evitar um sorriso mordaz.
	Todo meu amor por Peter, que lutaria por mim contra todos o marinheiros de gua doce. Se ele estivesse rodeado por gua salgada, procuraria primeiro um balde, e depois por mim.
	Ora, voc  tudo de que necessito, Bethany! Uma noiva pragmtica!
Estavam chegando s ruas que ladeavam a baa.
	Bem, chega de conversar. Escute bem, senhorita, deixe-me fazer meu trabalho enquanto voc se concentra em alguma coisa romntica. No pense em enjoos nem em baldes. Recorde filmes romnticos ou imagine Peter num pijama de cetim. Feche os olhos at que cheguemos l e, quando chegarmos, quero voc to apaixonada que s poderei avist-la atravs de uma doce nvoa de amor!
Bethany se concentrou e achou fcil sorrir. Sim, era fcil, porque aquele homem a envolvera numa deliciosa atmosfera de alegria.
Mas a "doce nvoa de amor" seria difcil de conseguir. E decerto no se materializaria por pensar em Peter, nem mesmo vestido com um pijama de cetim.
O gambazinho em seu regao continuava a dormir e lhe passava uma sensao de conforto. Bethany fechou os olhos e tentou imaginar uma cena de romance, mas nada aconteceu. S permanecia a risada e a lembrana dos olhos brilhantes de Bruce Hallam.
Por fim, desistiu. J deveriam ter chegado.
Mas no! Bruce dirigia, veloz, mas, em vez de ter virado em direo da baa, havia se dirigido  ponte. Por que razo?
	Desculpe-me, mas voc passou da entrada, Bruce. J deveramos ter virado. Se o iate de seu amigo est ancorado no outro lado, nunca voltaremos a tempo.
Houve uma pancada surda perto de Bethany. Ela olhou e percebeu que a porta a seu lado havia sido travada. O sistema central de trava fora ativado.
Olhou para o retrovisor e viu que aquele sorriso simptico havia desaparecido do rosto de Bruce Hallam.
	Acho que chegou a hora de lhe dizer que faz-la se atrasar  meu objetivo, Bethany. Na realidade, haver duas semanas de atraso. E acho que ser desnecessrio tirar fotos de um casamento que no se realizar!
Durante um momento, Bethany ficou atnita demais para reagir.
	O que Bruce pensava estar fazendo?
	O que... quer dizer com isso, Bruce? Eu no...
	No entende?  perguntou, sarcstico.  Ento somos dois.
Passou um quilmetro, e mais outro, e Bethany comeou a ficar apavorada. Por alguma razo que ela no conseguia entender, Bruce a estava levando a um lugar desconhecido contra sua vontade.
Mas para onde?
S Deus poderia saber.
Bethany tentou raciocinar, mas s conseguia pensar nas portas travadas.
Mesmo que conseguisse abrir, no havia como pular. O automvel estava correndo pelas estradas tranquilas do sbado, e ela no era louca.
	O que voc no entende, Bruce?  Bethany comeava a sentir medo.
	No entendo como Peter Mayberry encontrou uma noiva e organizou uma cerimnia de casamento no curto prazo de quatro semanas. Ento, pensei em aparecer para pegar voc e pedir que me explicasse.
	Explicar o qu?
	Por que est se casando com Mayberry.
	Mas eu no tenho de explicar!
	No?
	No!  Respirou fundou e ordenou:  Deixe-me sair.
	Estamos em alta velocidade. Voc se machucaria, e eu no quero feri-la.
	Ento, pare o carro!  Estava muito assustada, pois tinha a certeza de que, qualquer que fosse o propsito de Hallam, ele era mais do que capaz de levar o plano avante.
	No.
O corao de Bethany estava disparado.
	Por que no?
	No vou machucar voc, Bethany. Pode acreditar nisso.
Machucar voc no est em meus planos.
O vu ao redor do rosto de Bethany comeou a dar-lhe uma sensao de claustrofobia. Tirou-o, colocando-o de lado, e soltou os cabelos cacheados, que lhe chegavam  altura dos ombros.
	Seu plano?
	No sou maluco, Bethany. Estou bravo, mas louco, no.
	 loucura para um fotgrafo raptar a noiva que deveria estar fotografando.
	Surpresa! Eu sou fotgrafo.
	Voc no...
	Sou um fazendeiro, de nascena e de criao. O equipamento foi emprestado para a ocasio. No distingo uma pea da outra.
	Mas... por favor, no entendo!
	O que quer entender?
Bethany fechou os olhos e lutou contra um sbito impulso de rir. Estava perto de uma crise de histeria.
	Por que est me raptando.
	No a estou raptando. Estou apenas tomando-a em prestada. Considere-se um emprstimo. Voc ser devolvida intacta no prazo de duas semanas. Precisamente um dia depois do aniversrio de trinta anos de seu primo.
Bethany arregalou os olhos.
	Voc est tentando impedir que Peter receba a herana...
	Acertou, senhorita. Ento voc sabe. Estou certo, no estou? No  a noiva envolta numa nvoa de amor em quem Mayberry queria que todos acreditassem.
	Eu no...
	Mayberry disse que estava noivo da prima havia um ano. Mas fiz minhas investigaes. A primeira vez que se ouviu falar a respeito desse casamento foi h quatro sema nas. Ento voc tambm faz parte do plano?
	No entendi.
	Pretende fingir que viver feliz com a fortuna de Peter ou ele estar lhe pagando uma porcentagem?
Bethany sentiu-se gelar.
	Como sabe disso?!
	Responda  minha pergunta.
	No. Por que deveria? Como, com quem e por que vou casar no  de sua conta.
	 a que se engana. Daqui a duas semanas, no me importarei com quem voc se case. Mas mulher alguma se casar com Peter Mayberry antes disso. E como nesse pas so necessrias quatro semanas para se conseguir uma licena para casar, a no ser que Mayberry tivesse providenciado uma eventual substituta, voc foi sua nica escolha, a nica opo. Portanto, durante as duas prximas semanas ficar quietinha perto de mim, e seu precioso noivo ter um prejuzo de milhes.

CAPITULO II

No tornaram a se falar durante quase duas horas.
Bethany no teve outra escolha a no ser permanecer sentada e imvel, com a mente perturbada entre um pensamento e outro e o medo suplantando qualquer raciocnio lgico.
Bruce Hallam dirigiu atravs dos subrbios de Sydney e depois pela costa norte at pegar uma sada para o interior. Subindo pelas Montanhas Azuis, chegaram ao municpio de Hawkesbury, uma regio selvagem, cortada por riachos, linda e afastada.
Depois de todo aquele tempo, Bethany comeava a sentir nuseas ao imaginar que Peter Mayberry havia mentido e que as mentiras de seu primo a tinham colocado em perigo. Quanto s promessas dele...
 Isso no prejudicar ningum, Bethany  Peter prometera.  No h pessoas envolvidas. Se eu no herdar, o dinheiro ir para o governo para ser distribudo a parentes distantes que nem sabem da existncia de Oliver. E a despesa para descobri-los consumiria metade da herana. Acredite-me, ningum ser prejudicado.
Mas algum seria, sim. Bruce Hallam.
Sentada no banco de trs do luxuoso carro, Bethany sentia-se pequena e assustada como nunca, e apenas a raiva que crescia, a despeito de seu pavor, a impedia de romper em prantos.
Peter a tinha manipulado, e agora outro homem fazia o mesmo.
Estava sendo um joguete por causa de dinheiro.
Enfim, o animalzinho que Bethany carregava no regao interrompeu seus pensamentos. Sentiu que ele acordara e se mexia  procura da teta que a me tinha dentro da bolsa marsupial onde ele pensava estar.
Havia uma pequena mamadeira dentro da bolsa de veludo que ela carregava. Tirou a mamadeirinha e a segurou entre as mos para que ficasse na temperatura de seu corpo. Queria um microondas, mas a Mercedes ainda no possua esse tipo de equipamento.
Deu uma olhada para Bruce Hallam e colocou a mamadeira entre os seios. Tudo o que precisava fazer era erguer o filhote e aliment-lo.
E Bruce Hallam, na certa, perceberia.
Ele no estava olhando para ela. No podia ver suas mos, mas se mantinha atento a seus movimentos, e alimentar um filhote de gamb no automvel sem que ele percebesse seria quase impossvel.
Mas Bruce no poderia fazer objees. Ou poderia?
Peter faria. Bethany sabia muito bem que reao Peter teria se a visse com um de seus bebs. J havia feito isso uma vez quando Bethany tinha cerca de doze anos, e o resultado ainda fazia com que tivesse vontade de chorar.
Seria Bruce diferente?
Bruce Hallam possua olhos alegres, e Peter, no.
Porm, Bruce Hallam parecia implacvel e desumano. Dissera que no a machucaria, mas como poderia acreditar em suas promessas e confiar um indefeso animal  gentileza daquele desconhecido? Seria um crime. No poderia fazer isso.
	Por favor, Bruce, preciso que pare. Tenho de ir ao banheiro.
	Espere.
	No posso esperar. J esperei tempo demais. Voc tem de parar.
	No pararei.  No entanto, para surpresa de Bethany, Bruce diminuiu a velocidade, virou  direita e pegou uma estrada lateral que levava s colinas.  Estamos a dez minutos de casa.
	De sua casa?
	Isso mesmo.  Mais uma vez, Bruce olhou para ela pelo retrovisor, e o que viu o fez praguejar.  J lhe disse que no vou machuc-la. No h necessidade de ficar com esse aspecto infeliz e temeroso.
	No preciso ter medo? Quando voc me rapta e me traz para as montanhas contra minha vontade? Quando eu deveria estar me casando neste momento e ningum sabe onde estou?
	Cale-se, Bethany! Acredite-me, odeio esta situao mais do que voc. Se no estivesse desesperado...
	...pelo dinheiro de Oliver Bromley?
	O que sabe a respeito dele?
Bethany respirou fundo.
	Apenas que Oliver morreu no ms passado e deixou sua casa para meu primo.
	A casa e todas as propriedades.  E Bruce completou,
irado:  E toda a fortuna. Tudo ser de seu primo, que cuidou dos negcios de Oliver nos ltimos meses de sua vida e foi to dedicado e insinuante que o homem deixou tudo para ele. Deus sabe o que deve ter feito Oliver assinar, mas o bom Peter fez tudo com perfeio. Ou quase. O fato de, depois de todos os esforos, ainda ter de arranjar uma noiva, deve t-lo deixado furioso.
E deixou. Bethany lembrou-se do dia, quatro semanas atrs, quando Peter a procurara. No o via fazia anos, mas Hilda mantivera o filho informado a seu respeito de seus negcios. Na ocasio, em tom bastante melfluo, Peter dissera:
	Sei que no temos nos visto muito, Bethany. Mas sei que o contrato de arrendamento deste lugar expirar em breve. E como voc no tem condies de renov-lo, estou na posio de ajud-la.
Bethany teria cado na gargalhada se Peter no estivesse to circunspecto e completasse a proposta dizendo-lhe que tambm precisava de seu auxlio.
Oliver Bromley havia deixado a fortuna para ele, mas isso estava dependendo de Peter se casar at completar trinta anos. Caso contrrio, tudo iria para o Estado. Se Bethany concordasse em ser sua mulher, Peter lhe daria a preciosa fazenda como presente. Ficariam juntos durante um ano e depois se divorciariam.
Seria tudo muito simples.
O corao de Bethany lhe dissera para recusar, mas a alternativa era horrvel. Perder a fazenda, o nico lugar em que fora feliz...
Por fim, concordara, com a condio de que essa atitude no prejudicasse ningum.
	Ningum se importar com isso  Peter lhe assegurara vrias vezes.
Bem, Bruce Hallam era, com certeza, algum que se sentira prejudicado. Outro obcecado por dinheiro, outro fora-da-lei.
O carro sacolejou e entrou numa longa alameda ladeada por pinheiros. Bethany olhava tudo, apreensiva. No havia lugar algum para onde pudesse correr. Era uma regio selvagem, linda e montanhosa, e os pinheiros eram envolvidos por uma planta parasita que dava lindas flores vermelhas e que em outras regies podiam at prejudicar as plantaes, mas ali pareciam conviver em harmonia com outras plantas. Ao redor, o que se avistava era uma densa floresta que tornava o local muito bonito, mas ameaador para Bethany. Os pastos ficavam afastados, e a ltima fazenda por onde passaram estava a muitos quilmetros de distncia. Seria possvel correr sem ser alcanada? Pela estrada, no. E embrenhando-se pela floresta...
	Voc nunca seria encontrada  Bruce lhe disse, com rudeza, e Bethany percebeu que a estava observando.  Nem pense em fugir. Seria estupidez, e tenho cachorros treinados que a encontrariam em minutos.
	No vou ficar aqui. No posso.
Um novo pavor a dominou e no tinha nada a ver com sua integridade pessoal. Duas semanas aprisionada! Caro-line prometera cuidar de seus animais durante dois dias, e Bethany lhe falara que voltaria na segunda-feira. Nesse dia, na hora do almoo, Caroline iria embora, Bethany estando ou no de volta.
	Por favor, no posso! Olhe, Bruce, se Peter estiver prejudicando algum, no me casarei com ele, mas preciso voltar. No posso.  Deu um soluo de terror e Bruce Hallam praguejou.
	Economize suas lgrimas, senhorita. Fiz uma promes sa a mim mesmo e no vou alterar meus planos por nada. Ficar aqui durante as prximas duas semanas, portanto acostume-se a essa ideia.
A casa parecia uma priso. Devia ter sido construda no comeo do sculo, e era enorme, de pedra, com varandas ao redor e degraus tambm de pedra na entrada principal, que possua grandes portas de vidro e madeira. Era maravilhosa. Os jardins eram de tirar o flego. O gramado verde e vioso fazia uma curva por onde o automvel entrou. As flores nativas eram douradas e brancas, e havia roseiras em profuso, e tambm glicnias, primaveras e muito mais, tudo muito bem cuidado e preservando a vegetao natural, de modo que no se podia saber onde terminavam os jardins e comeava o pasto. A grama ia at a margem de um largo rio, e atrs da residncia estavam as Montanhas Azuis, macias sentinelas verdes.
Em outra situao, Bethany ficaria extasiada diante de tanta beleza. Com pavor, viu dois grandes cachorros se aproximando, alegres, dando as boas-vindas ao dono, que chegava. Ela levou a mo ao peito e fechqu os olhos. Parecia o cenrio de alguma histria antiga onde se prendiam mulheres indefesas em torres inexpugnveis.
Quando encontrou coragem para abrir os olhos, o carro estava atrs da casa, onde havia vrias garagens e estbulos. Ningum  vista.
Bruce Hallam parou e saiu do veculo assobiando para que os ces se aproximassem e fossem acariciados. Abriu a porta traseira, e os animais ficaram estticos observando Bethany com interesse vido. Movimentaram-se para irem em sua direo, mas foram impedidos pelo comando de Bruce, que ordenou que se sentassem a alguns passos dali.
 Fique quieta at que eu a conduza para dentro.  Hallam ordenou.  Se se mexer, os cachorros a atacaro. Enquanto estiver a dentro, estar a salvo. Voltarei em dez minutos. Relaxe, Bethany. Logo, logo, poder ficar no banheiro durante o tempo que quiser.
Bruce se afastou, e ela foi deixada com os ces e um pequeno gamb faminto.
Olhou para os cachorros, que olhavam para ela. Bruce dissera que a atacariam. Pela primeira vez, desde que fora sequestrada, sentiu vontade de sorrir. Um dos animais era um velho pastor alemo marrom que abanava a cauda, decerto querendo fazer amizade. O outro era um jovem collie, preto e branco, de olhos brilhantes e inteligentes, tambm abanando a cauda, com simpatia. O dono deles ordenara que ficassem ambos atentos a ela, mas Bethany sabia do poder que possua com os animais, e que seria fcil cativ-los.
Estava quase tentada, s para contrariar Bruce Hallam, mas seu gambazinho ficava cada vez mais agitado no meio de seus seios. Com cuidado fechou a porta para que seus interessados admiradores no vissem o beb ser alimentado.
Por um estranho e calmo momento, Bethany pde ficar sentada em silncio, com a pequena criatura acomodada entre suas saias de cetim, mamando da mamadeira.
O silncio era quase assustador. Afastada e entre montanhas, no se ouvia nenhum rudo, nenhum barulho de gerador ou mquina. Era um dia calmo, sem vento. S o que se ouvia era o canto dos pssaros nas rvores e o rudo do pequeno gamb se alimentando. Do lado de fora do automvel, os cachorros tomavam conta dela, com alegria.
Depois de uns cinco minutos, Bethany ouviu um veculo se aproximando, mas no conseguiu avist-lo. Por um instante, pensou que talvez Bruce Hallam a tivesse deixado ali, sob a guarda dos ces.
Devia saber que aqueles dois poderiam ser domados com facilidade. Teria de ficar quieta.
Bruce a tinha ameaado com os cachorros se ela por ventura se embrenhasse na mata. Eles no eram uma ameaa a sua segurana, mas com certeza a encontrariam. Poderiam no atac-la, porm, encontrariam sua trilha e, se Hallam tivesse um cavalo, no teria condies de fugir dele.
E claro que tinha cavalos. Havia estbulos ao lado da garagem, e era s olhar para ele que dava para saber que fora criado cavalgando. Era o prottipo do homem de fazenda.
Portanto, no havia nada que pudesse fazer a no ser acabar de alimentar seu beb, coloc-lo de volta na pequena bolsa de couro, cruzar os braos e esperar pelo que lhe estava destinado.
O raptor de Bethany cumprira a palavra dada. Voltara como prometera, pouco depois de dez minutos, caminhando com calma, como se tivesse apenas de tirar a bagagem do porta-malas, tarefa sem nenhuma importncia. Assobiou para os cachorros, que foram a seu encontro, felizes.
Bruce no podia ser to mau, Bethany pensou. Pelo menos no com aqueles animais, que o adoravam. E animais eram os melhores julgadores da personalidade humana. Esse pensamento diminuiu um pouco o medo que ainda sentia. Se Bruce amava os bichos, Bethany teria alguma chance. Ergueu a cabea e encontrou os olhos castanhos de Bruce desafiando-a.
	Preparou o calabouo, milorde?
	No h nenhum calabouo, Bethany.  Sorriu com o mesmo sorriso que esboava ao fazer festa para os cachorros.
 Voc ser minha hspede durante duas semanas.
	Mesmo contra a minha vontade.
	Uma hspede que eu preferia no ter. Os planos de seu primo, no entanto, no me deixaram outra escolha.  Abriu a porta do carro para que ela sasse e foi at o porta-malas.
Para surpresa de Bethany, Bruce tirou um par de pequenas malas, que reconheceu no mesmo instante.
Como...  Bethany saiu da Mercedes com a boca aberta de surpresa.  So minhas, como as conseguiu?!
No hotel. Voc no iria querer viajar sem suas malas.
Bethany sentiu os lbios secos. Comeava a perceber que aquele homem era diablico e muito inteligente. O que fizera no havia sido uma deciso momentnea, mas sim um plano elaborado com cuidado.
	Mas como as conseguiu?  perguntou de novo.
Bruce Hallam ps a bagagem no cho e olhou para Bethany sem piscar.
	Talvez seja tempo de voc saber que no foi raptada, Bethany. Se est esperando que a polcia venha a sua procura e que vai chegar a qualquer momento com as sirenes ligadas com seu primo em uma das viaturas, esquea. Voc planejou isso durante semanas.
	Eu o qu?!
Bruce enfiou a mo num dos bolsos e pegou um pedao de papel dobrado.
	Tirei uma cpia do bilhete que voc enviou a seu noivo abandonado, caso esteja interessada. Gostaria de ler a carta que ele recebeu um pouco antes de ir para a igreja?
Bethany olhava para Bruce e no conseguia dizer uma s palavra. Pegou a folha, desdobrou-a e leu:
Peter,
Obrigada por ter me oferecido casamento, mas recebi uma oferta melhor para continuar solteira. Voc herdar a fortuna de Oliver Bromley se se casar, e eu fui paga para assegurar que no se case. Nosso acordo foi financeiro. Portanto, deveria ter se certificado de que eu no estaria aberta a algum tipo de suborno. Outras pessoas podem jogar o mesmo jogo que voc, portanto deveria ter se preparado melhor, em vez de confiar em mim.
Bethany deixou o bilhete cair. Ficou esttica, ao sol, um calafrio percorrendo todo seu corpo, imaginando o rosto do primo ao ler essa mensagem. Ser que acreditaria que ela era capaz de escrever e fazer esse tipo de coisa?
E claro que sim. Tudo o que Peter fizera na vida fora ditado pela cobia. Se Bethany tivesse recebido proposta melhor para abandon-lo no altar, ele acreditaria, pois, no lugar dela, teria feito o mesmo.
Isso no significava, entretanto, que a perdoaria. Pensou na raiva do primo, no rosto lvido lendo a carta. Olhou para Bruce e notou uma expresso pensativa em seus olhos.
	Minha... minha tia... Eu...
	Voc deixou outro bilhete explicando tudo a Hilda. No foi to odioso quanto o que escreveu a Peter, mas incisivo. Dizia mais ou menos que seu primo a julgava uma ingnua e tola, mas que voc tambm era capaz de se dar bem. Quer ler?
	No, no quero. Como ousou fazer uma coisa dessas?
 Bethany tremia numa combinao de dio e choque, e sua voz era bastante fraca.  Como conseguiu minha bagagem no hotel, como se livrou do verdadeiro fotgrafo? Como...
	Dinheiro.  Hallam resumiu tudo numa s palavra.  Voc e seu primo deveriam saber que isso compra tudo. Cancelei o acordo com o fotgrafo dizendo-lhe que no precisvamos mais de seus servios, pois havamos encontrado outro mais bem qualificado. Ele ficou furioso, mas, quando lhe disse que seria pago mesmo sem trabalhar, agradeceu e foi embora.
Ficou to ofendido que no contatou seu primo para confirmar a demisso. Ento, paguei ao pessoal do hotel para levar os bilhetes a Hilda e Peter. Fiz um bom trabalho. Com o estardalhao que Peter fez com os preparativos para a cerimnia, no foi difcil tomar conhecimento dos planos dele. E eu sabia que voc iria arrumar as malas antes de ir para a igreja, ento apenas paguei ao camareiro para colocar sua bagagem em meu carro. Ele me vira conversando com sua tia e sabia que eu tinha relao com a famlia. Ento, no houve problema. No creio que seu primo v pr a polcia em nosso encalo, no depois de ler o bilhete onde voc deixou bem claro que planejara e organizara a fuga sozinha.
Bethany no conseguia falar. A cabea parecia oca, e o cho fugia de sob seus ps. Sentia-se perdida diante daquele homem, que tudo planejara com perfeio.
Nesse momento, Mayberry j est sabendo que algum lhe ofereceu dinheiro, Bethany. Mas no sabe que essa pessoa sou eu. E, mesmo que souber, no h nada que possa fazer, srta. Lister. Ser minha hspede aqui, por duas semanas. Por isso, sugiro que engula sua raiva, tire essa expresso de fria de seus lindos olhos e aproveite as frias foradas. No h mais nada que possa fazer.
Bethany estava to zangada que sentia que ia explodir. No falou nada, no iria dar essa satisfao quele rapaz odioso. Em vez disso, seguiu-o com docilidade aos aposentos que lhe reservara e prestou ateno s instrues que lhe eram dadas.
Esses cmodos so de minha governanta, Bethany. Voc encontrar comida na geladeira de seu quarto para que possa se arranjar a sua maneira. Imagino que gostar de me ver o menos possvel, e o sentimento  mtuo. Ah! Quero acrescentar que os telefones estaro desligados durante esse perodo. Os cavalos esto num estbulo afastado da casa, e as chaves de qualquer dos veculos estaro em meu bolso.
Bruce hesitou por um momento e tocou o rosto plido de Bethany, que se afastou.
	 um negcio duro, Bethany. Mas deveria ter pensado nisso antes de me atrapalhar com o acordo que fez com Peter. Se precisar de mim,  fcil me encontrar. Basta procurar pelos cachorros, que estarei perto, embora prefira que nos deixe sozinhos. Sugiro tambm que tire o lindo vestido de noiva e volte a ser a Cinderela. Seu prncipe no aparecer, pois nada mais  que uma mentira, um engodo.
E, com um ltimo olhar, Bruce Hallam se foi, fechando com firmeza a porta atrs de si.

CAPTULO III

Bethany andou pelo quarto e trancou a porta 'para pr o maior espao possvel entre ela e seu seqestrador. Jogou-se na cama. Ficou deitada e imvel por um longo tempo, abrindo e fechando as mos.
No sabia o que fazer. Pela primeira vez na vida, Bethany Lister no tinha uma s pista de como os fatos iriam transcorrer dali para a frente.
Seu desagradvel primo Peter a tinha lanado naquela confuso, mas decerto no a tiraria da enrascada.
Ainda estava vestida de noiva. Ao perceber, sentiu-se nauseada. Olhou para a roupa e se despiu, jogando-a ao cho.
Logo, estava de volta aos habituais jeans e camiseta. Foi ao banheiro, escovou os cabelos, tirando todo o fixador que o cabeleireiro pusera e esfregou o rosto para se livrar de qualquer vestgio de maquilagem, que no tinha o hbito de usar. Ento, olhou seu reflexo por um longo tempo.
O saquinho de couro com o filhote de gamb era agora bem visvel sem a proteo das rendas. Parecia que Bethany tinha um terceiro seio. Mas que importncia isso poderia ter? A Bethany normal era assim, uma moa natural, sem enfeites, descala e sem pretenso.
Logo teria de enfrentar Bruce Hallam de novo, mas primeiro queria readquirir seu equilbrio. Precisava se recompor e se apresentar a ele com uma certa dignidade.
Atravessou as portas da varanda e, hesitante, olhou para o jardim. Desceu os degraus de pedra e foi para o gramado.
O jardim era um blsamo para a alma. Havia muita paz ali. Bruce Hallam devia estar em casa, com seus cachorros, pois no havia sinal deles. Desse modo, Bethany se viu livre para passear como gostava, com os ps descalos, sentindo o contato da grama e do solo frio. Estivera na cidade durante quase uma semana, organizando o casamento, e fora tempo demais.
O gamb estava quieto no saquinho de couro, junto a seu peito. Olhou-o, pensativa, e resolveu solt-lo para que tambm aproveitasse o contato com a natureza. Ao ouvir os cachorros se aproximarem, guardaria o animalzinho de novo.
Deitou-se no cho, formando com o corpo uma curva protetora para o pequeno. O sol estava morno, e sentia-se muito cansada. Ficou imvel e tentou afastar da mente todos os pensamentos desagradveis, como se no houvesse na face da terra mais nada alm dela e da pequena criatura a seu lado.
Sentiu o toque de uma mo na cabea.
Levantou-se, assustada, e, quando olhou, viu uma criana agachada, olhando para ela em silncio.
Bethany olhou para a garotinha, que no devia ter mais do que cinco ou seis anos. Era loira, e seus finos cabelos estavam tranados. Vestia uma jardineira bem gasta pelo uso e estendeu a mo para tocar Bethany, como que para certificar-se de que aquela estranha adormecida era mesmo real.
Antes de saber quem era a recm-chegada, Bethany ps o filhote de volta em seu seio. Depois de olhar para a menina, ficou mais confiante e soltou de novo o animal, que tornou a ficar sob a proteo do corpo de Bethany, mordiscando uma folha de fcsia.
A menina olhava para o gamb sem dizer uma s palavra. Era estranho para uma criana ficar to quieta. Havia alguma coisa nela que lembrava a Bethany os bichinhos de que cuidava, os mais velhos, que haviam aprendido que no se deve confiar nos humanos.
 Ol...  Bethany sorriu.
A menina no respondeu. Seus olhos estavam fixos no gamb, como se tivesse medo de respirar e a pequena criatura desaparecer.
Bethany olhava, hesitante, para a menina e para o animal. Os dois possuam a mesma fragilidade e, apesar do dia tenso e apavorante, ficou comovida pelo aspecto carente da criana. Alguma coisa estava errada.
	Esta  a primeira vez que o beb fica fora da bolsa, desde que a me morreu. Estou cuidando dele at que fique mais velho e possa voltar para a natureza.
Silncio.
O gamb continuava a comer a folha, e o sol acalentava o trio, criando uma aura de paz ao redor deles. Bethany no falou mais nada. No sentia necessidade. A criana parecia contente s de apreciar o bicho, e Bethany estava feliz em deix-la  vontade. Agora havia duas pequenas criaturas selvagens perto dela.
Enfim, foi a menina quem quebrou o silncio:
	Voc o deixar ir embora?  perguntou num sussurro, como se falar lhe exigisse um enorme esforo.
	Quando ele estiver pronto. Gambs no so animais domsticos. Eles tm de viver em liberdade.
"Como eu", Bethany pensou.
Seria Bruce o pai da garota?
A menina voltou a ficar em silncio, encantada com o filhote.
Bethany deitou-se de lado, com o rosto encostado na grama, permitindo que a paz do lugar a envolvesse. A pequena ficou a seu lado, e alguma coisa lhe dizia que a ela precisava de tranquilidade tanto quanto um animal ferido. Havia traos de terror no rosto dela. Bethany sentia que, se a tocasse, fugiria apavorada.
Talvez Bruce Hallam a tivesse prevenido. Se fosse isso, o que teria dito? Que era uma espcie de feiticeira?
No havia nada a fazer a no ser observar e esperar.
Enfim, a criana falou de novo:
	Qual  o nome dele?
	No sei.  Bethany sentia, por instinto, que quanto menos ateno pusesse na garota, melhor seria.  Tem alguma sugesto?
	 menino ou menina?
	Menina.
	Ento poderamos cham-la de Ptala. Porque  isso o que est comendo, e parece fazer muito bem a ela.
Bethany olhou a pequena criatura, que olhava ao redor, ansiosa. Pegou-a e a colocou de volta na bolsa de couro no meio dos seus seios.
 Ptala  ainda um beb  explicou.  Est cansada e no pode passar frio.
	Ela dorme no seu peito?
	 seu lugar preferido. Alm do calor, ela sente as batidas de meu corao como se fosse de sua me.
A criana tornou a ficar quieta, como se estivesse considerando as informaes que acabara de receber. Ento, deu um longo suspiro, como se tivesse chegado a uma concluso.
	Voc quer saber meu nome?
	Se quiser me dizer... Meu nome  Bethany.
A menina meneou a cabea com gravidade e deu sua opinio:
	Bethany  um lindo nome. No to bonito como Ptala, mas eu gosto. Meu nome  Katie, ms minha minha me s vezes me chamava de Katie Sininho. Por causa da fada, voc sabe. Mame dizia que eu era to pequenininha quanto ela...
	Muito prazer em conhe-la, Katie.
	Gosta de meu vestido?
Bethany olhou para a jardineira da garota, bonita mas bastante surrada e pelo menos dois nmeros menor. Mas aquele no era momento para honestidade. No quando havia tanta ansiedade na voz da criana.
	Gosto muito, Katie.  sua roupa favorita, no ?
	Foi mame quem me deu. Ela mesma a fez na mquina de costura, e eu fiquei olhando.  Fechou os olhos e logo os abriu, como se estivesse procurando coragem.  Se o pequeno gamb fica em seu peito e pensa que est na bolsa da me, voc acha... que eu tambm poderia?
Bethany piscou sem saber o que responder.
	Talvez. Quer se lembrar de sua me?
	Sim.  Katie sentou-se perto de Bethany e, resoluta,
encostou-se nela. Quando tornou a falar, a voz parecia tensa:
 s vezes, no consigo me lembrar dela muito bem. Antes conseguia, mas agora tudo est ficando apagado.
Bethany sentiu um aperto no corao. O que teria acontecido na vida da pobre criana? Mas perguntas no eram importantes, mas sim aquele pedido urgente de carinho e conforto.
Passou o brao ao redor de Katie e a puxou de encontro a si. A criana ficou rgida durante algum tempo, e ento pareceu relaxar e aninhou o rosto no peito de Bethany.
	H dois coraes aqui, Katie. O meu e o de Ptala.
Escute e sinta, e lembre-se de quando sua me a segurava assim. Estou certa de que ela o fazia. Todas as mes o fazem, e acho que a sua foi uma tima me para ter uma garotinha como voc.
	Acha mesmo?
	Tenho certeza. E ela costurou sua jardineira. Que coisa maravilhosa fazer isso para a filha! Agora fique quietinha e oua.
	Katie!
De imediato, Katie se levantou e correu em direo dos arbustos. Antes que Bethany pudesse tambm se erguer, a criana se fora.
Bruce Hallam a chamava da varanda, mas, em vez de ir ao encontro dele, a menina passou correndo e entrou na casa. A porta bateu atrs dela, e Bruce ficou do lado de fora.
Que tipo de relao estranha seria aquela?
Devagar, Bruce se virou, olhou para o lugar de onde Katie tinha vindo e avistou Bethany.
Os cachorros a viram ao mesmo tempo. Haviam sado de casa junto com o dono e estavam parados a seus ps. Olhavam interessados para a estranha, no territrio que lhes pertencia, e desceram os degraus de pedra para lhe fazerem festa. Bethany ps a mo na pequena bolsa de couro em seu peito e ficou parada, esperando.
Por um instante, Bruce hesitou em seguir Katie, mas ento decidiu ir atrs dos cachorros pelo gramado.
Quando os animais chegaram perto de Bethany, estavam excitados e a rodearam. Ela sabia que o cheiro do gamb atraa a ateno dos ces e que o faro aguado lhes dizia onde o animal estava ali.
Voltem!  Bruce ordenou com firmeza.
Os cachorros olharam para seu dono para se certificarem de que falava srio e, com relutncia, foram at ele, que vinha caminhando em direo a Bethany.
Mas que droga!
Era muito claro, pela conduta dos ces e pelo modo como Bethany cobria a pequena bolsa sobre o peito, que havia alguma coisa que interessava muito aos animais. Conforme Bruce foi se aproximando, seus olhos se arregalaram.
O que voc tem a?
Bethany no se mexia. Sentia-se insignificante, pequena e insegura perto do homem grande e forte. Curvou os dedos dos ps descalos como que para prend-los  terra para que pudesse sentir-se mais potente. Mas isso a deixou ainda mais insegura. Queria estar calando botas e vestindo uma jaqueta de couro com a figura de uma caveira sobre dois ossos cruzados nas costas e ter pelo menos mais uns dez centmetros de altura.
	Mostre-me o que est escondendo  Bruce exigiu.
Mas Bethany no se moveu, e seus olhares se encontraram.
	Voc disse que no queria me ver nas prximas duas semanas, Bruce.
	E ainda no quero. Mas, assim mesmo, mostre o que est escondendo.
	No.
	Ento deixarei que meus cachorros...
	Voc  detestvel!  Deu um passo para trs, empalidecendo.  O que acha que estou escondendo? Um revlver? Se tivesse um, no estaria aqui. Voc est com todo o poder, e sabe disso. Como se atreve a me ameaar, a me assustar? Como se atreve a manter-me prisioneira? Podia ter escrito todas as cartas do mundo, mas como explicar  polcia quando eu voltar e der parte de voc?  Seu rosto ficou ainda mais plido.  Se... Oh, Deus, se voc deixar que eu volte...
O sbito pensamento de que talvez no fosse mais embora daquele lugar a apavorou. Bruce deveria ter apagado todos os vestgios que por ventura houvesse, e todos estariam agora pensando que Bethany desaparecera por vontade prpria e, se a deixasse ir embora, teria de enfrentar acusaes graves. Ele era um criminoso, um seqestrador. Um homem de quem a prpria filha tinha medo.
	Bethany, j lhe disse que no vou feri-la.  Percebeu o terror estampado no rosto dela e se aproximou mais, tentando toc-la, mas Bethany se afastou como se aquele contato a queimasse.
	Como posso saber que est dizendo a verdade?
	Porque eu lhe disse.
	Oh, sim? Da mesma maneira que Peter falou que ningum iria ser prejudicado se ele herdasse o dinheiro de Oliver Bromley? Como voc, que afirmou ser um fotgrafo? Voc e Peter... Por que fui confiar nos dois? No passa de um criminoso, Bruce Hallam. E Katie... Por que sua filha tem medo de voc? O que fez com a me dela?
Houve um silncio absoluto.
Ningum falava, e at os cachorros pareciam ter parado de respirar.
Bethany continuava de p, no mesmo lugar, o rosto plido como giz, observando as emoes passarem pelo rosto de Bruce. Primeiro raiva, depois choque, e ento incredulidade.
	O que sabe a respeito da me de Katie, Bethany?
	Por que Katie tem tanto medo de voc?  Bethany exigia uma resposta.  Por que no a deixa ver a me?
	Como sabe a respeito da me dela?
	Katie me contou que no consegue se lembrar da me. Disse que...
	Ela lhe disse?!  Bruce estava emocionado e atnito.
Deu dois passos  frente e agarrou Bethany pelos ombros, com expresso de raiva.  Voc est mentindo! Olhe, no sei que encrenca est tramando, mas...
	Por que eu mentiria?!
Durante um longo momento, Bruce ficou encarando para Bethany.
	Katie  muda. Ela no fala, por isso sei que est mentindo. E o que est escondendo embaixo dessa camiseta?
Passou quase um minuto at que Bethany encontrasse foras para vencer o medo e a ira e fosse capaz de dizer algo. Estava confusa, e esse sentimento superava o terror.
Olhou para Bruce Hallam e no viu mais ameaa nos olhos dele.
	Tenho um filhote de gamb  murmurou e viu-o ficar mais confuso ainda.
	Um gamb?
	 um beb. Criar rfos selvagens  meu trabalho.  isso o que fao.
	Seu trabalho?
	E o que fao para viver. Trabalho para a conservao da vida selvagem e cuido das espcies at que possam ser levadas de volta  natureza. E pare de repetir o que digo.
	No acredito em voc.
	No estou pedindo que acredite.  Deu de ombros.  Mas  a verdade.  por esse motivo que voc tem de me deixar ir embora.
	No vou deixar que se v.
	Ento ser responsvel por vinte mortes. Terei uma pessoa cuidando dos animais at segunda-feira. Se eu no estiver de volta, eles morrero de fome. Tem de me deixar ir embora ou permitir que eu telefone a algum para arrumar um substituto. Precisa...
	Deixe-me ver o filhote  Hallam pediu, incrdulo.
Bethany tirou a bolsa de baixo da camiseta e a abriu. Uma pequena cabea apareceu. Bruce estava chocado.
	Onde conseguiu isso?
	J lhe disse. Faz parte de meu servio.  Fechou a bolsa e a ps de volta ao seu lugar.
	Voc no trouxe essa coisinha na bagagem, trouxe?
	No. Eu a trouxe do modo como est agora.
	Mas...  Bruce olhava fixo para Bethany, como se estivesse raciocinando rpido.  Voc o escondeu sob o vestido de noiva!
	Acertou. Muito bem! Bruce, este animal eu posso alimentar com leite. No entanto, tenho outros em minha fazenda que dependem de mim. Se eu no voltar, todos morrero. Precisa deixar que eu v embora.
Bruce Hallam continuava a olh-la, pensando que tipo de criatura ela era, e o que concluiu no deve ter sido muito agradvel.
	No vou deix-la partir por causa de um gambazinho, Bethany.  uma linda histria, mas...
	Ainda est pensando que estou mentindo?
	Espera que eu acredite que carregou a criatura debaixo do vestido de noiva? Que ia se casar levando um gamb no meio dos seios? E depois? Voc e seu precioso primo iam levar o bicho na lua-de-mel? Conheo Peter Mayberry, e no acredito no que est dizendo.
	No haveria lua-de-mel. Eu me casaria com Peter e em seguida iria para casa.
	Ento voc e Mayberry iam se casar apenas por causa do dinheiro? Estava fazendo isso apenas por causa da herana?
	Certo.  Bethany engoliu em seco.
No havia um modo de escapar de Bruce. Estavam acontecendo coisas que ela no entendia. Mas sabia que a nica chance que teria era ser honesta e torcer para que ele fosse mais decente e mais ntegro que seu primo.
Olhou para Bruce e sentiu que valia a pena tentar.
	Posso explicar?
Bruce Hallam fez que sim com a cabea e ficou parado no mesmo lugar. Cruzou os braos e esperou.
	Tenho uma fazenda, Bruce. No como esta.  pequena, e no  de minha propriedade. Eu a arrendo. Fiz um curso de enfermagem veterinria e, desde que me formei, trabalho duro para poder comprar o lugar. Tem apenas vinte acres, mas  um local muito bonito, e eu crio alguns animais para poder pagar o aluguel.
	E?
	E tambm trabalho em minha carreira.  o que sempre quis fazer. Significa tudo para mim. As pessoas me trazem animais feridos ou rfos, e eu trato deles at poderem voltar  vida selvagem. A maioria  de espcies nativas, como cangurus e coalas. H pssaros tambm.
	E o que isso tudo tem a ver comigo?  Bruce fazia um enorme esforo para no se mostrar interessado, tentando permanecer frio.
A expresso de raiva havia amenizado, no entanto, e Bethany encontrou coragem para continuar:
	Tenho problemas com as cercas. Pensei que a propriedade tivesse sido bem cercada, mas h seis meses um casal de cachorros selvagens entrou e matou algumas cabras que estavam quase no ponto de serem vendidas. Foram mortos cinquenta animais.
	Isso deve ter feito um rombo e, suas economias.
	Foi pior que isso. Arruinou-me. No posso mais pagar o aluguel do arrendamento, terei de procurar outro lugar e no tenho condies de comprar uma fazenda, nem que seja menor. Sem isso, no poderei reabilitar meus animais terei de pedir demisso da Fundao de Conservao do Meio Ambiente. Isso significa o fim de tudo pelo que trabalhei com tanto empenho e dedicao.
Silncio.
	E ento, Bethany?
	Ento  onde entra meu primo na histria. Minha tia sempre me controlou, descobriu o que tinha acontecido e que eu estava falida. Acho que at ficou satisfeita, pois no queria que fizesse sucesso com minha fazenda. Ela falou com Peter, que veio me ver. No gosto de Peter. Nunca gostei. Depois que meus pais morreram, quando eu ainda era uma criana, fui viver com Hilda e ele, mas minha tia sempre me tratou mal, e Peter gostava de tornar minha vida miservel. Parei de confiar nele h muito tempo, mas dessa vez... Bem, ele estava me oferecendo esperana. Disse que Oliver Bromley tinha lhe deixado uma herana para, sob a condio de que estivesse casado quando completasse trinta anos, mas Peter no queria uma esposa. Acreditei porque meu primo  muito egosta para partilhar a vida com algum.
	E o que Peter lhe ofereceu?
Bethany baixou a cabea e olhou para seus ps descalos, na grama.
	Trinta mil dlares. O preo de minha fazenda.
Silncio outra vez.
Ser que Bruce acreditara?
	Bethany, quanto voc acha que Oliver Bromley deixou para seu primo? Mayberry lhe disse?
	No. Mas imaginei que devia ser uma soma grande para fazer com que Peter decidisse se casar. Ele falou tambm que a herana cobriria as despesas com nosso divrcio.
	Muito generoso da parte dele  Bruce resmungou e ergueu o queixo de Bethany para fazer com que ela o encarasse.  Bethany, casando-se com voc, seu primo herdaria mais de um milho de dlares em dinheiro. E tambm a manso de Bromley, que vale uma fortuna, as obras de arte e as coisas pessoais dele. O valor total deve chegar a mais de dois milhes de dlares. O custo do divrcio no parece pequeno?
	Dois milhes...
	Foi o que eu disse. Isso se voc tivesse feito sua parte.
Bethany meneou a cabea e olhou para Bruce.
	Mas voc acha que eu me importo com a quantia que Peter iria herdar? Ele e tia Hilda sempre me trataram como lixo desde que eu tinha cinco anos. Quando tive idade suficiente, fui viver sozinha, e ficaria muito feliz se no tivesse tornado a v-lo.  Mordeu o lbio.  Mas agora vejo que dois milhes de dlares fazem muita diferena. Sobretudo se for voc a receber a herana, e no Peter. Entendo o motivo de todo seu esforo.
	No... Bethany, acho que ns dois nos julgamos mal. No quero nada do que Oliver deixou. Ele no  meu parente.
Bethany respirou fundo. Nada mais fazia sentido.
	Ento, por que me raptou? E por que est me mantendo prisioneira? Se no vai herdar o dinheiro de Oliver Bromley, quem herdar?
	Quer mesmo saber?
	Sim, quero.
	Katie.
	Katie...  Bethany percebeu que o dia estava esfriando com a aproximao da noite. Sentiu um calafrio e balbuciou:
 Katie, sua... sua filha?
	Ela no  minha filha.  Olhou para a casa e acrescentou:  Bethany, precisamos conversar, mas antes tenho de ver Katie.  uma garota independente, mas gosto de saber o que faz. Quer entrar comigo?
	Na sua parte da casa, voc quer dizer?  Bethany perguntou com ironia.  Ou a parte que serve como minha priso?
Bruce ergueu a mo e passou-a pelos cabelos. Pela primeira vez seus traos fisionmicos mostraram preocupao.
	Bethany, isso tudo  uma droga. Mas acho que poderamos comear de novo. E tempo de eu ser honesto com voc. Entre, vou ver Katie e tomaremos alguma coisa.
	Eu no...
	No h escolha.  Pegou o brao de Bethany e a conduziu para dentro de residncia.

CAPITULO IV

Katie estava brincando com blocos de construo na mesa da cozinha, para onde Bruce conduziu Bethany. A menina olhou para os adultos, mas no disse nada.
O que Bruce tinha dito? Que Katie era muda?
	Gostaria de beber alguma coisa, Katie?  ele perguntou, mas no obteve resposta.
A garota olhou para Bruce, que tirava uma jarra de limonada da geladeira para servi-la. Katie pegou o copo, bebeu sem fit-lo e voltou a brincar.
	Vou tomar uma cerveja, Bethany. Temos vinho, se preferir.
	Tambm gostaria de um copo de limonada.
	Certo. Vamos nos sentar na varanda. E possvel ver Katie de l.
Bethany olhou para Katie e hesitou entre falar com a menina ou no, mas alguma coisa lhe dizia que seria melhor no tentar. Parecia que a linguagem corporal de Katie lhe dizia para ficar longe. Pegou o copo de limonada e seguiu Bruce.
	Katie  filha de minha meia-irm, Bethany. Acho que posso dizer que  quase minha sobrinha.
	Mas ela parece no conhec-lo bem. Katie o trata como a um estranho.
	Sou um estranho.  Suspirou.  Minha meia-irm, Christine, era casada com Richard Bromley, filho de Oliver Bromley, mas nunca o conheci. Christine conheceu Richard nos Estados Unidos e nunca veio com ele para a Austrlia. Acho que havia um desentendimento entre pai e filho.
	Mas sua irm amava Richard?
	Quem pode saber? Depois da morte de mame, Christine se afastou da famlia e s vim a saber dela depois da morte de Oliver Bromley. Katie deve ter seis anos de idade e viajava muito com os pais, s vezes em condies desesperadoras. No sei a histria toda, mas Christine e Richard foram mortos. Suspeito que Richard estivesse envolvido com trfico de drogas entre a Austrlia e a costa da Indonsia, mas a polcia no disse nada a respeito, e eu tambm no perguntei. Quando morreram, as autoridades da sia entraram em contato com Oliver Bromley, atravs de seu gerente, Peter, para saber que atitude deveriam tomar em relao  menina. Mayberry concordou com relutncia, por parte de Bromley, em pagar pelo sustento de Katie.
	Mas no permitiu que voltasse para a Austrlia  Bethany concluiu.
	De jeito nenhum. Enfim, Katie foi levada para um orfanato e l ficou durante seis meses, at a morte do av. Quando isso aconteceu, o dinheiro que enviavam a ela foi suspenso de imediato. Ficou bvio que Mayberry no se sentiu mais responsvel pela menina. Ento, quando a penso foi cortada, a polcia passou a fazer investigaes e acabou me encontrando, como parente mais prximo. Peguei um avio e fui busc-la.
	At ento, no sabia da morte de Christine?
	No. No sabia de nada. Nem mesmo da existncia de Katie. Se eu soubesse...
	Voc amava sua irm e, apesar de no t-la visto por muito tempo, sua morte o magoou muito, no foi?
Bruce olhava para o pr-do-sol, e sua expresso era de sofrimento.
	Quando Christine nasceu, eu tinha nove anos, depois de minha me ter se casado com um homem de quem eu no gostava. Meu pai era muito amargo e infeliz, e minha me estava preocupada com sua nova famlia. Eu gostava de cuidar de Christine nas ocasies que passava com mame. Ficava a maior parte do tempo com meu pai, na montanhas, por isso quase no via Christine. Quando ela completou sete anos, meu padrasto arrumou um emprego nos Estados Unidos e quase no a vi mais. Mas, sim, eu a amava e por ela, cuidarei de Katie.
	Quer dizer que lutar pela herana de Katie.    
	No dou a menor importncia para os dois milhes de dlares.  Bruce sorriu.  Como pode ver, tenho mais do que o suficiente para cuidar de minha sobrinha. Mas seu noivo...
	Peter no  meu noivo. No me casarei com ele, se isso prejudicar Katie.
	Independente de ele ser ou no seu noivo, as negociaes entre as autoridades da Austrlia e dos Estados Unidos no foram feitas por Oliver Bromley. As decises foram tomadas pelo seu gerente, Peter Mayberry. Bromley era idoso e doente, e Mayberry s comeou a trabalhar com ele alguns meses antes de sua morte, e cuidou para que os antigos funcionrios de Oliver, o administrador da fazenda e uma antiga governanta, fossem dispensados. No foram lembrados no testamento, apesar de terem trabalhado para Bromley durante quarenta anos ou mais. Mayberry herdou tudo.
	E Katie?
	Mayberry no queria saber dela. Foi decisivo na resoluo de no mais cuidar da menina. Recusou-se a traz-la para a Austrlia com a justificativa de que os pais tinham residncia na sia e que ele no possua fundos para isso. Pagou apenas o suficiente para mant-la no orfanato mais barato que pde encontrar. O padro de salubridade do lugar de onde a tirei  apavorante. Ainda no sei como a encontrei com vida, e tenho certeza de que Mayberry esperava que Katie morresse. Quando Bromley se foi, a penso foi cortada, e Peter no quis mais saber dela. A lei no estipulava que netas deveriam ser sustentadas, e Katie foi deixada a seu prprio destino.
	Oh, no!  Bethany olhou para Katie, que continuava brincando na cozinha. Entendeu, ento, por que ela lhe parecera to solitria.  Acha que Peter manipulou Oliver para ser beneficiado pelo testamento?
	Voc conhece seu primo melhor do que eu. O que acha?
S havia uma resposta plausvel.
	Sem dvida. S haveria um motivo para que Peter se dedicasse a um moribundo: dinheiro.  Suspirou e encontrou desafio nos olhos de Bruce.  Ento voc me raptou para punir Peter. Comeo a entender.
	 mais simples do que isso.  Bruce levantou-se e fitou as montanhas a distncia.  Mais direto, se preferir. Depois da morte de Christine e Richard, seus pertences foram devolvidos a Oliver Bromley. Quando localizei as autoridades que enviaram suas coisas, me deparei com um oficial, o mesmo que entrara em contato com Oliver para tratar da penso de Katie, muito preocupado e que me disse haver muitos objetos na casa. Muitas fotografias e livros. O oficial enviou tudo para a casa de Oliver Bromley, depois de Katie ter sido mandada para o orfanato. Ento, meu advogado mandou uma carta, por parte de Katie, pedindo que tudo fosse dado a ela.
	E foi?  Bethany engoliu em seco, sabendo a resposta de antemo.
	Voc sabe o tipo de homem com quem ia se casar.
Mayberry mandou uma curta resposta a meu advogado dizendo que Katie no tinha direito a nada e que, to logo os bens de Oliver passassem a ser dele, aps se casar com voc, tudo o que tivesse algum valor seria leiloado, e o resto, queimado. Afirmou tambm que nos notificaria sobre os detalhes do leilo, e Katie poderia arrematar o que quisesse.
Bruce suspirou, tentando conter a ira.
	Vi o orfanato para onde Katie foi enviada, Bethany. Era terrvel. Ningum falava ingls, e minha sobrinha era tratada como um ser insignificante. Havia lugares muito melhores, e tambm baratos. Acha que seu precioso primo iria se importar em procurar fotografias e envi-las a Katie, para que ela pudesse se lembrar da me? Fiquei to furioso que decidi contestar o testamento, mas, quando o advogado verificou os termos, descobriu que eu podia fazer coisa melhor. Que, como nico parente de Bromley, Katie herdaria mais que velhas fotos... se Mayberry no se casasse. E farei tudo o que estiver a meu alcance para que ele no herde um centavo. O advogado disse tambm que, como tutor de Katie, posso fazer com que os antigos empregados de Bromley voltem ao servio com a justificativa de que Katie tem obrigaes para com eles, que Peter no assumiria. Portanto, estou privando seu primo de dois milhes de dlares. Voc me culpa?
	E claro que no! Voc tem de acreditar que eu no sabia. Eu nunca teria...
	Posso ver isso agora.  Bruce se afastou dela e foi dar uma espiada em Katie.  Fui tolo em pensar que voc era igual a ele. Mas por que concordou com esse casamento?
	Eu lhe disse. Estava desesperada.
A vida de alguns cangurus e gambs valem esse sacrifcio?
	Sem dvida. Desde que meus pais morreram, os animais tm sido os nicos seres em quem confio. Para voc isso pode no ter significado, mas para mim... Bem, a vida deles vale muito, Bruce, bem mais que dinheiro. Talvez o mesmo que algumas fotografias para voc, que est se arriscando a ir para a cadeia por sequestro e crcere privado.
Sabe que corre esse risco, no sabe?
	Sim. Sopesei tudo, e minha raiva foi maior.
	E o que Katie faria se fosse para a cadeia?
Bruce meneou a cabea. Tinha o olhar cansado e triste.
Para um bom orfanato, talvez? Ela no est feliz aqui, e no sei o que fazer. Katie no...
Bethany interrompeu-o:
	No o qu?  Franziu as sobrancelhas.  Voc me disse que e Katie  muda. Por que disse isso?
	Porque ela . No fala agora e tambm no falava no orfanato. Como lhe disse, ningum l sabia ingls, mas alguns tentaram se comunicar, sem resultado. A menina est comigo h trs semanas, e nem a mim disse uma palavra.
	Katie falou comigo. Disse que tem saudade da me.
Bruce a olhava, espantado.
Tambm me disse que a me a chamava de Katie Sininho e que havia feito a jardineira que est usando numa mquina de costura.
Silncio total.
Dentro da casa, a criana estava concentrada nos blocos.
	Minha me costurava  Bruce falou, por fim.  Era uma boa costureira, e Christine, mesmo quando tinha apenas sete anos, costumava ajud-la. Lembro-me bem das duas  mquina de costura. Mame ensinava a filha a fazer roupas simples, no incio. E a jardineira... Katie a estava usando quando a levaram para o orfanato. L, tinham de usar uniformes, mas ela carregava a jardineira como se fosse um
brinquedo de estimao, como um ursinho de pelcia, por exemplo. Quando a trouxe, vestiu essa roupa e ningum a convenceu do contrrio. Quando dorme, eu tiro e ponho para lavar, e logo que seca ela a veste de novo. A jardineira est quase desmanchando, mas Katie no se separa dela.
	No a culpo.  a nica coisa que ela tem.  Bethany meneou a cabea.  Oh, Bruce, sinto muito, muito mesmo.
	No h necessidade de se desculpar. Seu primo mentiu e, desde que no se case com ele, nada de grave acontecer.
	Peter deveria ser castigado pelo que fez a pobre menina sofrer. Sozinha, abandonada... Mas ter o que merece se voc conseguir tirar dele dois milhes de dlares. No poderia haver castigo maior. Nada poderia feri-lo mais. Tem certeza de que Peter no herdar? No h outro modo de ele conseguir?
	Meu advogado checou mais de uma vez. Na Austrlia, para se casar, so necessrias quatro semanas para obter licena, e no h excees. Faltam menos de duas semanas para Peter completar trinta anos, e o testamento de Bromley
foi claro. Meu advogado suspeita que Oliver estava muito doente para saber o que fazia. O testamento  muito simples, mas conciso: "Deixo tudo o que possuo para Peter Mayberry com a condio de que esteja legalmente casado por ocasio
de seu trigsimo aniversrio". Portanto, se no se casar, Katie herdar tudo.
	E se alguma coisa acontecer a Katie?  Bethany olhou de novo para a criana. Vises de seu primo perseguindo a menina povoaram sua imaginao, e ela estremeceu.  E se Katie tivesse morrido naquele orfanato?
	Era o que Mayberry queria, tenho certeza. Porm, mesmo que isso tivesse acontecido, nada mudaria para Peter, porque, se no se casar, o dinheiro ir para o governo.
Christine e Richard no eram casados, e essa foi uma das razes de Oliver Bromley ter perdido contato com eles. Richard registrou Katie como filha, mas Oliver Bromley jamais aceitou que tinha uma neta. No sei por que motivo colocou essa clusula de casamento no testamento.
Bethany respirou fundo, aliviada. Se o "dinheiro no fosse parar nas mos de Peter, ento Katie estava salva.
	E aonde isso tudo me leva, Bruce? No pode me manter aqui.  Olhou para o rosto dele, e seu corao acelerou, de repente, ao pensamento de sair da vida daquele homem, daquela criana e de seus problemas.
No tinha cabimento sentir-se assim. Bruce Hallam e Katie no tinham nada a ver com ela. Por que ento parecia que sim? Por que se preocupava tanto com eles?
	 claro que no posso mant-la aqui, Bethany. Voc tem seus preciosos animais...  Fez uma pausa.  S que teria de enfrentar a ira de seu primo. Como Peter reagir a sua fuga?
Bethany estremeceu, e Bruce notou.
	Voc tem medo dele?
	No. Peter j ficou com raiva de mim outras vezes. Eu sobreviverei.
Tinha sobrevivido at ento. Alguns dos piores exemplos do temperamento cruel de Peter deixaram nela cicatrizes emocionais. Ele era mais velho e adorava ter a sua merc uma criana indefesa. Mas isso tambm no tinha nada a ver com Bruce Hallam.
Ento Katie e eu a levaremos de volta a sua casa amanh.
Bethany no protestou. No havia nada que pudesse fazer alm de voltar e enfrentar a fria de Peter.
	Levar Katie conosco?  perguntou tentando pensar em alguma coisa mais agradvel. Voc no a levou quando...
	Quando raptei voc?  Sorriu.  Tenho um amigo fotgrafo, o que me emprestou o equipamento, que me orientou dizendo-me que, se quisesse parecer confivel, teria de agir com displicncia, e no ajudaria nada ter uma criana comigo. Pedi ento para que minha governanta cuidasse de Katie at que eu voltasse. A sra. Scott ficou admirada, para dizer o mnimo, quando deixei claro que queria a casa sem nenhum empregado enquanto voc estivesse aqui, mas isso no ajudou. Deixei-a sozinha no carro enquanto vim falar com ela, para que no a visse vestida de noiva. Mas devo dizer-lhe Bethany Lister, que fica muito melhor usando jeans. Cetim no  seu estilo.
	Sei que no . Mas Peter exigiu uma noiva esplendorosa.
	Peter exige demais.
	Sim... Bruce, se voc me der licena, preciso alimentar o filhote. E, para ser franca, tambm estou com fome. Vou para meu quarto.
	No.
	No? Por que no?
	Voc  minha convidada. Tratei-a muito mal, raptei-a e a trouxe para c como se fosse* uma criminosa. Deixe-me reparar o que fiz de alguma maneira.
	De que forma?
	Deixando-me preparar seu jantar.  Olhou para o relgio.  V alimentar seu beb e volte em meia hora.
Katie e eu estaremos esperando.

CAPITULO V

Bruce Hallam sabia cozinhar. Bethany sentiu 'o aroma da comida antes de entrar na cozinha. Atravessou a varanda e suspirou ao entrar na cozinha. Ento, hesitou.
Katie estava sentada no cho, a um canto, e no ergueu os olhos quando ela entrou. Bethany olhou para o que a garota estava fazendo e franziu as sobrancelhas, preocupada. Construa com os blocos, a mesma coisa vezes seguidas numa repetida monotonia. Havia erguido a mesma torre trs vezes enquanto ela e Bruce estiveram conversando na varanda, e agora tornava a constru-la. Quantas vezes j teria feito a mesma coisa no intervalo de tempo em que Bethany estivera ausente?
Sua ateno foi desviada por Bruce.
	Espero que no seja vegetariana.  Ele sorriu.  Fiz medalhes de fil com molho de manteiga e talharim. H tambm salada.
	Se eu fosse vegetariana, o aroma dessa comida me faria mudar de ideia na hora. Onde aprendeu a cozinhar assim?
	No tive escolha. Ou aprendia ou morria de fome quando meus pais viajavam. Papai no sabia fazer nada na cozinha. Era o tpico machista, que acreditava que homens apenas caam e trabalham, e mulheres ficam em casa. Posso entender, em parte, por que minha me o deixou.
E voc? Desde ento ficou sozinho?  perguntou e seguiu o olhar de Bruce em direo a Katie.
	Quer saber se sou casado?  Riu com uma ponta de amargura.  No, Bethany, no h nenhuma esposa escondida no quarto ao lado. E nem haver, a no ser que seja um casamento de convenincia.
	Por que no?  Curiosa, sentou-se no grande banco ao lado do fogo.
	Tenho observado o que o casamento faz com as pessoas.
	E o que ele faz?  Estava sendo impertinente, mas usaria essa impertinncia e mais alguma coisa para desviar a ateno da infeliz criana, que continuava a brincar, alheia  presena deles.
	Destri o casal e as pessoas que vivem ao redor. Sei que  uma crena pessoal, mas voc... acho que sente o mesmo.
	Por que eu deveria sentir isso?
	No hesitou em casar-se com seu primo. Embora fosse uma unio pr-forma, evitaria que se envolvesse com outro.
	 diferente.
	Por qu?
	No  que eu desaprove o casamento. Mas quem se casaria comigo? Quer dizer... estou contente com meu modo de viver e sei que meu lugar  ao lado dos animais.
	Seu lugar?
	 verdade. S me sinto bem quando estou em minha casa com meus bichos.  o meu lugar.
	Mas no pensa como eu a respeito do casamento?
	Nem sequer considerei esse assunto. No faz parte de meus planos.  Sorriu.  Que homem ficaria feliz em partilhar a cama comigo e minha coleo de animais selvagens? Mas no penso como voc. Lembro-me de meus pais, sempre to felizes. Ns ramos uma famlia de verdade. Eu me sentia muito bem. Era mais nova que Katie, mas ainda assim recordo que eles foram muito importantes para mim. E por isso acho que a jardineira de Katie e as fotografias que voc est tentando recuperar so muito importantes para ela.
Bethany olhou para a garota, que parecia muito solitria. No conseguia suportar isso. Tomando uma sbita deciso, levantou-se do banco e foi at a menina, tirou os blocos das mos dela e perguntou, com muito carinho:
Katie Sininho, voc j terminou de construir a torre. Quer que eu a ajude a fazer alguma coisa nova?
Katie a olhou com olhos apticos e no respondeu.
	Vou fazer um carro  Bethany disse com firmeza.  Voc pode me ajudar enquanto tio Bruce termina o jantar.
Silncio.
	No vai funcionar  Bruce murmurou.
	No saberemos se eu no tentar.  Sorrindo, comeou a construir o carro.
O automvel estava quase pronto, mas Katie no ajudou. S olhava, sem interesse, como se apenas esperasse para ver at quando duraria a pacincia de Bethany, que seguiu ignorando a apatia da garota.
	E uma Mercedes  Bethany afirmou, solene.  Como a de tio Bruce. Sei que a dele  preta, mas aposto que titio gostaria que fosse vermelho com listras amarelas. E um artista tem o direito de escolher as cores de que mais gosta.
Nenhuma resposta.
Bruce terminou de preparar a comida ao mesmo tempo que Bethany acabava de montar o brinquedo. Serviu a refeio em dois pratos de tamanho normal e em um menor, que colocou perto de Katie, que sentara-se no cho para espiar Bethany.
Vamos comer todos juntos?  Bethany sugeriu, animada.
	Katie no comer enquanto estivermos olhando. Deixe-a fazer da maneira como gosta, ali mesmo, perto do carro que voc fez.
	Isso  ridculo, Bruce. Ponha mais um lugar  mesa, por favor.
	Mas...
Bethany pegou o prato menor da mo dele. Sabia que estava fazendo a coisa certa. Katie tinha o mesmo olhar amedrontado que seus animais quando eram trazidos a sua fazenda. A criana no queria ficar sozinha; apenas tinha medo de confiar nas pessoas, que j a haviam magoado muito.
Nossa Katie Sininho tem estado sozinha durante muito tempo. Est na hora de essa solido terminar.
Colocou o prato da menina na mesa, tirou o saquinho com o gamb de baixo da camiseta e o pendurou no pescoo de Bruce, que, depois de uma exclamao de surpresa, aceitou sem perguntas.
	Meu gambazinho precisa sentir batidas de corao  Bethany falou com a voz um pouco trmula.  Voc pode emprestar-lhe o seu, Bruce?
	Enquanto voc faz o que com o seu?  Bruce olhava-a, divertido, e quase sem querer ajeitou o filhote de encontro ao peito.
	Vou emprestar o meu para Katie. E lhe mostrarei, Bruce, como segurar sua sobrinha, para que amanh possa fazer a mesma coisa.
Parou do lado de Katie e, com um movimento rpido, pegou a criana nos braos. A menina pesava pouco, e era pequena para a idade. Bethany a abraou e sentou-se numa cadeira.
	Katie e eu estamos prontas para jantar, tio Bruce. Se voc for gentil e servir de garom...  Olhou para o copo de plstico que Bruce punha na mesa, cheio de leite.  Katie Sininho gostaria de tomar leite na taa de vinho. Ela  uma de ns. Vamos comer juntos.
	Seu gamb est se mexendo, e faz ccegas.  Bruce ria, divertido.
	Sorte sua. H muitos homens que dariam tudo para sentir ccegas enquanto comem.
	E? O que voc sabe sobre isso?
	Conclu sozinha. Voc tem de acreditar em mim, por que no tem outra escolha.
Foi a refeio mais estranha que Bethany j tivera, mas tambm a melhor e a mais agradvel.
Durante os primeiros minutos, Katie no comeu nada. Permaneceu sentada, observando, e Bethany, depois de algumas garfadas, fez uma pausa.
Voc quer que eu lhe d comida, Katie Sininho? 
A menina fez que no com um gesto de cabea, e Bethany continuou a comer, enviando a Bruce, mensagens com os olhos para que ele no interferisse. Ele no o fez. Continuou a comer com calma, e Bethany o abenoou pela percepo. A garota precisava se sentir protegida, mas livre para comer ou no. No podia ser forada a nada.
Enfim, Katie comeou a se alimentar. Quando Bethany terminou sua refeio e comeou a saborear o excelente vinho que Bruce lhe servira, a garota ergueu a mozinha e pegou a colher. A outra mo estava apoiada no colo de Bethany.
Esse novo contato era agradvel. Katie comeu uma colherada, depois outra, e a tenso foi se dissipando.
	Quanto tempo seu pequeno gamb precisa de um corao batendo?  Bruce perguntou com curiosidade, enquanto Katie pegava sua taa de leite.
A criana ficou tensa, mas quando percebeu que a pergunta no era dirigida a ela, voltou a relaxar e continuou a beber.
	Se eu estivesse em casa, a deixaria num lugar aquecido, no necessariamente perto de mim  respondeu Bethany.  Ela gosta de um pouco de liberdade, mas ainda precisa de um lugar que imite a bolsa marsupial da me. Na fazenda, tenho cobertores eltricos, ento meus bebs ficam bem, mesmo quando no os posso carregar.
	Sei...
Katie terminou a refeio. Comera tudo, Bethany notou, satisfeita, embora no tivesse dito nenhuma palavra. Estava at duvidando de ter mesmo ouvido a menina falar.
Agora, Katie Sininho, est na hora de dormir.  Fez um carinho nela, e a criana se encolheu agarrando-lhe a mo.  Acho que eu tambm vou.
Bethany levantou-se e ps Katie no cho. A mo da menina ainda a segurava com fora, impedindo Bethany de endireitar as costas. Tentou se livrar dos dedinhos, mas no conseguiu. Ento, tornou a pegar a menina no colo.
Olhou para Bruce em dvida. O que fazer? Afastar-se, mesmo sabendo que a criana precisava dela? No podia abandon-la, como tambm nunca abandonava seus animais.
	Onde voc dorme, querida?
A menina enterrou a cabea no ombro de Bethany e escondeu o rosto.
	O quarto de Katie  perto do meu, Bethany. Mas ela no gosta muito dele, pois est aqui h trs semanas e a maioria das noites acaba dormindo no cho da cozinha.
	No a deixa dormir com voc?
Bruce fez um gesto negativo com a cabea.
	Oh, cus!  Ele passou a mo pelos cabelos com um gesto que Bethany estava comeando a reconhecer. Ento, suspirou.  No sei se voc pode imaginar, mas percebe o problema de trazer Katie para uma fazenda? Ela  uma cidad americana com residncia na sia. Sou meio-irmo da me dela, e seus pais jamais requereram para ela a cidadania australiana. Tive de convencer o pessoal do Bem-Estar Social de que eu era a nica pessoa interessada em Katie, que tinha o direito de voltar para a Austrlia e, o mais difcil de tudo, que eu era um homem honesto, bem intencionado, s preocupado com ela. Estavam me tratando como se eu fosse algum pervertido. Portanto, Katie dorme em seu prprio quarto, Bethany, e ponto final. Alguma irregularidade, e o Bem-Estar tira a garota de mim.
	Entendo. Onde voc disse que ela dorme?
	Na maioria das vezes, aqui na cozinha, no cho, junto dos blocos de construo e com a jardineira,  claro. Tentei faz-la usar pijamas, mas Katie dormia segurando a jardineira, como se fosse uma boneca.
	Tentou fazer uma cama para ela aqui?
	 claro que tentei. No funcionou. No sei como dormia no orfanato, mas aqui prefere o cho.
	Aposto que sim.  Bethany soprou os cabelos da menina.  Aqui  quente, e dormir sozinha num quarto frio  triste. Bruce, voc tem um cobertor eltrico?
	Tenho alguns. No inverno  muito frio nas montanhas.
	Ento poderamos fazer uma espcie de casulo para Ptala?
	Ptala?
	Katie deu esse nome para a gamb.  Sorriu.  A no ser que voc queira dormir com o bichinho debaixo de sua camiseta. E aviso que ela precisa ser alimentada a cada duas horas.
	No estou com vontade de dormir com um gamb. Mas... e voc?
	Acho que tenho de atender a outro bichinho. Sempre fao isso quando recebo uma nova criatura. Decido quem precisa mais de minha companhia. E agora j tomei a deciso.  Afastou a criana um pouco para olhar para ela.
 Katie Sininho, seu tio vai me dar uma grande cama, e  muito frio dormir sozinha. Voc poderia dormir comigo? 
A criana arregalou os olhos.
Vou acord-la toda vez que for alimentar meu bichinho. E se voc roncar, farei ccegas at que pare. Mesmo assim, gostaria de dormir comigo e com Ptala?
Silncio.
Bethany mordeu o lbio. Estaria fazendo bem  criana confortando-a nessa noite se ningum fosse beneficiado com isso? Se partisse no dia seguinte e Katie permanecesse no seu mutismo e seu tio continuasse lutando para entend-la, nada mudaria.
Ento, eu vou, Katie Sininho. Se no quer dividir a cama comigo e com meu gamb, vou deix-la ficar onde voc preferir. Mas, se mudar de ideia, diga a seu tio que quer ficar comigo esta noite.
Silncio.
	Est bem, Katie  repetiu com calma, como se a deciso da menina no fizesse muita diferena.  Se  assim que prefere...
Comeou a pr a menina no cho, e ela se agarrou em Bethany, que manteve a atitude com firmeza e se afastou dela.
	Se voc mudar de ideia e quiser ficar comigo esta noite, ter de dizer a seu tio Bruce. Faa isso, Katie.
	O que voc quer, Katie Sininho?  Bruce perguntou e se abaixou para ficar no mesmo nvel da garota.  Diga-me.
A criana arregalou os olhos, abriu a boca vrias vezes, mas no emitia nenhum som. Havia, sem dvida, muita presso em sua pequena mente. Um enorme conflito. Bet-hany sentiu o corao se compadecer daquela criaturinha e um enorme desejo de tornar a peg-la nos braos. Teve de despender uma fora herclea para permanecer imvel.
Bruce tomou a mo da sobrinha e olhou para ela com carinho.
Diga-me, Katie.
O tempo parecia ter parado. E Katie quebrou o silncio:
Quero ficar com Bethany.

CAPITULO VI

Bethany acordou para alimentar Ptala s 'duas da manh. O animal no estava se mexendo, mas era hora de aliment-lo.
Bruce tinha improvisado uma verdadeira bolsa marsupial, aquecida, ao lado da cama onde ia dormir. Dera trabalho fazer com que a temperatura estivesse boa para Ptala suportar.
	Voc tem certeza de que sabe o que est fazendo, Bethany? No quero gamb assado no desjejum.
	Confie em mim.
Katie dormira agarrada  camisola de Bethany, que, ao verificar que a menina estava bem adormecida, se desvencilhou e levantou-se para preparar a mamadeira.
A noite estava linda. Bethany foi at a varanda, sentou-se em uma das confortveis poltronas e ficou a observar o jardim e, mais ao longe, o rio prateado pelo luar. As portas de madeira e vidro estavam abertas, e Bethany estremeceu quando ouviu a voz de Bruce bem atrs de si. Ptala, que mamava, tambm se assustou, e Bethany exclamou:
	Santo Deus! Voc parece um ladro se esgueirando sem fazer barulho!
	Aprendi esse truque com um assombrao muito minha amiga  disse, sorrindo, e sentou-se numa poltrona, ao lado dela, encostando-se nas almofadas.  Diga-me, o que est achando de suas companhias para dormir?
	Ningum ronca. Pelo menos, acho que eu tambm no, mas, se roncar, no tem importncia porque j estarei dormindo.
	Voc no ronca  Bruce assegurou e viu a expresso de Bethany mudar.
	Como sabe?
	Estive ouvindo atrs da porta, mas no a abri. Assumiu minha responsabilidade esta noite, Bethany, mas me acostumei, nessas trs ltimas semanas, a verificar a cada duas horas se Katie estava bem. Tornou-se um hbito. Porm, isso no me preocupa. Do mesmo modo que voc, tambm tenho o costume de acordar durante a noite para ver meus animais. Quando tenho uma vaca ou uma gua em trabalho de parto...
	No confia em mim?
	Katie tem pesadelos. Foi por isso que tentei ouvir
alguma coisa atravs da sua porta. Pensei que voc teve um dia pesado e poderia no acordar. Ento...
	Sim?
	Comecei a pensar que fui tolo em achar que poderia cuidar de Katie sozinho. Quando soube da existncia dela, a nica coisa que tinha em mente era que se tratava da filha de Christine e eu era seu nico parente. Mas isso no  suficiente. Posso ser tudo o que Katie tem, mas ela precisa de uma verdadeira famlia, no s de mim.  Suspirou.  Minha sobrinha falou com voc. Em uma noite, conseguiu o que tentei, sem sucesso, durante vinte dias, Bethany. Isso me fez perceber como agi errado e como Katie est desesperanada aqui.
	Ento, o que sugere?
	A equipe do Bem-Estar Social recomendou uma famlia adotiva. Disseram que Katie tem de ter um pai e uma me, e talvez um ou dois irmos, e que duvidavam de minha competncia para educ-la. Acham que eu deveria visit-la sempre, para manter o vnculo com Christine e por ser seu nico parente, mas que ficar s sob meus cuidados no ser o suficiente para adapt-la  vida.
	Mas voc a ama. Acho que isso  o que mais importa.
Se tem amor suficiente, Bruce, tudo  possvel.
- Acha mesmo?  Levantou-se olhando fixo para ela.
 Voc entende disso, no , Bethany? Sabe o que  o amor. E a especialidade de Bethany Lister. Cuida de rfos e feridos at que possam andar com suas prprias pernas. Pe tudo o mais de lado, tudo ao que a maioria das mulheres d importncia, porque amar  a coisa mais importante do mundo. No sei se alguma vez encontrei uma pessoa como voc em toda a vida. Tambm  uma criatura meio selvagem...
Bethany engoliu em seco, olhou para Bruce, e as batidas de seu corao se aceleraram. Aquele homem era especial. Rico, forte e sofisticado e...
Bruce...  Bethany tambm se levantou.  Apenas tem de fazer o que achar melhor. Oua o que diz seu ntimo e no se importe com o que os outros falam. Voc ama Katie, e  isso o que importa. No pode desistir agora.
Bruce Fitou Bethany, e seu olhar se transformou. Confuso? Dvida? Talvez ambos e mais alguma coisa que ela no conseguia definir. Deu um passo para trs para olh-lo melhor e, de repente, tomou conscincia de que sentimento era aquele. E isso a assustou demais.
	Vou para o quarto, Bruce. Meu gamb precisa ir para a bolsinha, e eu... preciso dormir.
	No, no precisa.  Segurou-a pelos ombros.' Bethany, no fique com medo. Talvez possamos pensar em alguma coisa para fazer juntos.
	No sei o que est querendo dizer.
	O que far sem sua fazenda?
	No sei. Acharei lares para meus animais, penso eu.
E quanto a mim, voltarei a minha carreira de enfermeira veterinria.
	E se eu lhe oferecesse um emprego?
Bethany mordeu o lbio, tentando se concentrar no que ele estava dizendo. As mos de Bruce ainda estavam sobre seus ombros, e seus olhos possuam um brilho magntico e intenso.
	Katie precisa de uma figura feminina. Vi isso com clareza esta noite. Ela precisa de voc.
	Quer dizer... uma bab?  Tentou se afastar dele, que a segurou, impedindo-a de fugir.
	No. Mesmo porque, j tenho uma governanta. Como lhe disse, a sra. Scott est sempre aqui, mas dei a ela e aos outros empregados duas semanas de folga enquanto voc fosse ficar. A sra. Scott  uma boa alma, mas no consegue chegar at Katie. No vejo como uma profissional qualificada poderia fazer melhor. Mas voc...
	No sou uma bab.
	Mas tem um corao to grande quanto este pas. E, se voc concordar em trazer seus animais para c, no haver motivo para que no possa continuar o trabalho que adora. E Katie poderia ajudar, e, talvez fazendo isso, minha sobrinha encontre sua prpria individualidade.
	Trazer meus bichos?
	Ser necessria alguma organizao.  Bruce parecia bastante animado com a prpria ideia.  Os ces tero de ser treinados para deixar seus pacientes sozinhos, mas isso no  problema. No permito que se embrenhem pela parte selvagem da fazenda, e o lugar onde seus bebs ficaro sero apenas uma extenso. So cachorros inteligentes, e aprendero com facilidade. Podemos cercar o jardim e fazer
um reservado para os animais maiores. Os arbustos aqui so densos e favorveis para a reabilitao deles. Por que no daria certo, Bethany Lister? "
	No daria...
	Por que no?
	Eu no...  No continuou. Seu corao dava saltos, e ela no conseguia pensar. No com as mos de Bruce tocando-a e seus olhos fitando-a com tanta intensidade.
	Por que no, Bethany? Tem amor para dar e vender, e decerto poder dividi-lo com uma pobre menina que precisa de voc desesperadamente.
	No daria certo.
	Diga-me por qu.
	No posso. Depois, quando eu tiver de ir embora, meu corao vai se partir.
Houve um grande silncio. O luar os cercava com brilho prateado. Mais abaixo, o rio seguia seu curso, profundo e misterioso, refletindo a lua e as estrelas.
O momento era mgico. A magia tambm os cercava e os envolvia.
Bethany continuava quieta e trmula. Bruce a segurava sem tirar os olhos dela, e pouco a pouco foi trazendo-a para mais perto dele at que seus corpos se roaram.
E Bethany no conseguiu resistir.
Era a noite, dizia a si mesma. Era o lugar. A lua. Nada mais parecia existir alm daquele homem, que a abraava com infinita ternura.
Bethany ergueu a cabea. Bruce segurou-lhe o queixo, aproximou os lbios e beijou-a.
Num esforo supremo, Bethany afastou-se dele, quase em lgrimas.
Voc me raptou e me trouxe para c  fora, Bruce. No tem o direito de me seduzir para que eu trabalhe para voc. Se quer uma bab para Katie, ter de encontrar algum. No pode me persuadir desse modo. De jeito nenhum!
E, antes que Bruce pudesse responder, virou-se, correu para o quarto e fechou a porta.
Demorou muito para conciliar o sono e, quando dormiu, teve sonhos estranhos e perturbadores.
Alimentou Ptala s cinco da manh e tornou a dormir. E os sonhos foram ainda piores.
Katie acordou antes de Bethany. Ficou deitada, quieta, os olhos arregalados, esperando com infinita pacincia Bethany despertar.
Quando cansou, Katie, com um dedo, abriu uma das plpebras de Bethany, que acordou e sorriu.
Ei, Katie! Bom dia! Por que abriu minha janela?
Katie esboou um breve sorriso, mas foi muito mais do que Bethany poderia esperar.
"Eu posso fazer alguma coisa boa com esta menina. Mas e depois? Irei embora quando o contrato terminar?"
Seria muito duro.
Envolveu a criana num abrao e por, um momento, sentiu-se tambm abandonada e pde avaliar como Katie havia sofrido.
	Vamos nos vestir, querida. Tomaremos o desjejum e depois seu tio vai me levar de volta a minha casa.
	Casa? Mas... onde voc mora?
	Numa fazenda a algumas milhas daqui, Katie Sininho. S vim para visitar voc e seu tio. Hoje tenho de voltar.
	Leve-me com voc.
	No posso fazer isso.  Bethany acariciou-lhe o rosto e sentiu uma pontada no corao.  Mas voc me ver de novo. Pedirei a seu tio para vir visit-la sempre que meus animais no precisarem de mim. E hoje, ir a minha fazenda e ver meus bebs, Katie. Vai ador-los. H um filhote de coala que foi salvo de um incndio, e um canguru que foi atropelado por um carro. Acho que vai gostar muito deles.
Agora, devemos nos vestir. O que quer usar hoje?
	Minha jardineira.
	Claro!
A jardineira era a nica coisa segura que a menina possua. Adultos no podiam entender e... Bethany tinha de ir...

CAPITULO VII

Bruce no se encontrava em casa quando Be-^ thany e Katie saram do quarto. Estava tudo deserto, e as duas resolveram procur-lo. Pela primeira vez, Bethany deixou Ptala sozinha, acomodada na "bolsa mar-supial" que Bruce havia improvisado com o cobertor eltrico. Mas onde estaria ele? No o viram no jardim, nem nas redondezas. Tambm no havia sinal dos cachorros.
	Teremos de cham-lo, Katie.
Mas a menina no respondeu. Desde que Bethany dissera que iria embora, o sorriso desaparecera dos lbios da garota. Segurava na mo de Bethany, mas ficara aptica outra vez.
Por fim, foram at a cozinha e acharam um bilhete sobre a mesa: "Fui alimentar o gado. Vejo vocs s nove, se estiverem acordadas, par de dorminhocas."
	Seu tio  muito rude, Katie Sininho  Bethany falou, sorrindo.
Tinha vontade de ir atrs dele, mas hesitava. Porm, que mal isso poderia fazer, se ia embora naquele mesmo dia?
	Talvez possamos ir ver o que Bruce est fazendo. Voc sabe onde  o pasto?
Katie no respondeu, e Bethany pensou que tivesse voltado ao mutismo anterior. Porm, depois de pensar durante alguns instantes, a menina respondeu:
	Todas as manhs ele d feno aos animais do outro lado do rio. H uma ponte, e eu sei como cortar o caminho, se voc quiser, mas precisar usar botas de borracha.
	Por que as botas?
	Por causa das cobras.
	Voc quer ir encontrar tio Bruce? No tenho botas de borracha, mas cantaremos o tempo todo.
Katie a fitou, surpresa.
	Por que vamos cantar?
	Bem, as cobras tm mais medo de ns do que ns temos delas. E, se nos ouvirem cantando, se afastaro de nosso caminho. Bem, Katie Sininho, tem certeza de que pode encontrar tio Bruce?
	Sim,  fcil.
No foi.
Bethany havia calado um par de sapatilhas inadequadas, Katie, botas de borracha, e foram cantando at chegarem s proximidade do rio. L, Bethany parou.
	Katie...
	A ponte est logo ali. Poderamos ter vindo pela estrada, mas  muito mais longe. Tio Bruce diz que este  o melhor atalho.
Bethany olhou, desanimada, para a margem, pensando que, se Bruce tinha essa opinio, devia ter nadadeiras nos ps. O terreno entre onde elas se" encontravam e a ponte era lamacento e inclinado.
	Katie, no estou usando botas.
	Eu falei que iria precisar delas.
	Voc disse que precisaramos delas por causa das cobras.
	Tambm por causa da lama.  Pegou a mo de Bethany.  Vamos. Por favor... Tio Bruce disse que  divertido e delicioso afundar na lama.
	Pode ser, Katie Sininho, mas vou ficar toda enlameada.
	No faz mal.
Talvez no fizesse. Bethany hesitou durante trinta segundos. Ento, sorriu, tirou as sapatilhas e seguiu Katie. Deu um passo, mais outro e mais outro...
Katie, pequena e leve, afundava apenas algumas polegadas, mas Bethany afundou at os tornozelos no primeiro passo, e a lama macia e "deliciosa" entrava no meio dos dedos do ps descalos. No segundo passo, afundou at a barriga da perna, e, no terceiro, at os joelhos. Ia tirando uma perna de um buraco e colocando-a em outro at que andaram alguns metros, e Bethany caiu na risada ao ver em que estado estava ficando.
	Oh, garota terrvel! Vou ficar grudada aqui para sempre, Katie!  Olhou para o inocente rosto da menina.  Aonde est me levando, Katie Sininho? Seu tio faz mesmo este caminho? Conte-me a verdade.
	No. Mas me mostrou a lama l da ponte e me disse que costumava vir por aqui quando tinha minha idade. Prometeu que, quando eu voltasse a falar, me traria aqui para celebrar. Ontem  noite eu estava com muito medo para pedir-lhe, mas esta manh pensei que, como tinha conversado bastante, poderia traz-la aqui.
	Obrigada, querida. No posso me esquecer de tambm agradecer a seu tio por ter lhe dado essa ideia. Se conseguirmos chegar aonde ele est,  lgico.
	Voc consegue, se tentar. Olhe para mim. Nem sujeia jardineira. Com botas de borracha, estou limpa.
Mais alguns metros, e Bethany teve de parar para tomar flego. Escorregou duas vezes e precisou apoiar a mo no cho para se proteger, enfiando o brao no barro at o cotovelo. Agora estava parecendo uma vtima de guerra, re-cm-sada das trincheiras.
Olhou para a ponte. Ainda estavam longe dela. A sua frente, o lodo brilhava sob o sol, numa beleza ameaadora. Um par de aves dava um vo rasante nas guas perto das margens, sem deixar nenhum sinal na lama, enquanto Bethany ia abrindo buracos a sua passagem.
	Katie, acho que no terei foras para chegar  ponte. Deve haver uma maneira mais simples de fazer...
	H.
Bethany parou de falar olhando, estupefata, para Bruce, que da ponte olhava para as duas e sorria.
	Bom dia, garotas.  Por seu tom, era fcil perceber que estava fazendo muita fora para no gargalhar.  Esto fazendo um novo tratamento de beleza?
Katie apertou mais a mo de Bethany, que percebeu que ainda havia desconfiana em relao ao tio. No sabia como tinha sido o relacionamento da menina com o pai, mas era notrio que se relacionava com muito mais facilidade com ela do que com Bruce.
Bethany olhou para ele e tambm sentiu-se inquieta, apesar de essa inquietao ter origem muito diferente da de Katie.
Bruce usava jeans, e a camisa estava aberta quase at a cintura. Os cabelos brilhavam ao sol e dava para ver o sorriso bonito e o peito musculoso e forte, mesmo a distncia.
Mas que situao ridcula!
Bethany tomou flego outra vez e continuou andando at se aproximar dele.
	Muito boa a sugesto que deu a Katie, Bruce. Muito obrigada. Voc pagar minha conta na lavanderia?
	H uma soluo mais barata.  Ele sorriu.  Ainda est com o pequeno gamb?
	Graas a Deus, meu beb est a salvo, em casa.
	Ento no h problema. Sabe nadar?
	Eu no...
	No?  Meneou a cabea. 'No acredito, Bethany. Tem a aparncia de uma mulher que nada como um peixe. Mas se diz isso...  Olhou para a sobrinha.  Bethany parece estar em apuros, Katie Sininho. Precisamos de um plano. Que tal tio Bruce salv-la?
A menina olhava, confusa, de um para o outro.
	No sei se Bethany quer ser salva  Katie conseguiu responder.
	Claro que quer. Senhoritas em perigo sempre querem ser resgatadas.  Bruce falou com firmeza, o sorriso se alargando.  Voc j ouviu alguma histria de um valente guerreiro que salvou uma linda donzela da boca de um drago que cuspia fogo, s para ouvi-la dizer: "Desculpe-me, querido, mas eu estava gostando do churrasco!"? E claro que no. Nas histrias de fadas, nenhuma princesa se recusa a ser salva, por isso no vejo por que Bethany recusaria.
Katie olhava fixo para o tio, com a boca entreaberta. Ficou sem falar por uns dez segundos e, para surpresa de Bethany, comeou a rir.
	Ns no temos nenhum drago. Voc est sendo tolo, tio Bruce.
	Mas temos lama! E ela come as pessoas dedo por dedo.  sorte voc estar usando botas de borracha, Katie Sininho, mas nossa Bethany est correndo perigo.
	Ento voc vai salv-la?  a menina perguntou, fascinada.
	Claro que vou!  Bruce tirou a camisa, olhou para Bethany, se balanou na beirada da ponte e observou o rio.
	Voc j est vindo, tio?  Katie quis saber.
	Agora mesmo. Pretendo ir to rpido quanto o super-homem. E sua funo, como minha auxiliar,  impedir que a herona fuja at que eu chegue.
	No acho que Bethany possa fugir.  A menina continuava a rir.  Est presa no lodo at os joelhos.
	 assim que eu gosto que minhas donzelas estejam. Presas.  E, sem mais uma palavra, se atirou no rio.
Bethany no fugiu. Como Katie tinha dito, no podia, mas, mesmo que no estivesse impedida de sair dali, no fugiria. Ficou parada, olhando para o ponto da gua onde Bruce tinha desaparecido.
Os minutos foram passando, e ela comeou a se preocupar.
Bruce j no deveria ter voltado  superfcie? O rio seria muito fundo? Era seguro mergulhar ali? O homem seria louco?
Mas logo Bruce apareceu, perto do lugar onde ela estava, e ainda com um sorriso nos lbios.
A seu lado, Katie gritava, deliciada, e se agarrava em Bethany pelas costas. Seu corpinho se agitava com a risada e pela primeira vez Bethany soube que o medo que a menina parecia sentir no era verdadeiro. Katie Sininho estava comeando a acreditar que seu tio Bruce podia ser muito engraado.
Bruce era engraado? Engraado era pensar que, enquanto o nervoso de Katie em relao ao tio estava diminuindo, o de Bethany aumentava.
Bruce estava s com a cabea para fora da gua, e a uns dez metros de distncia das duas. Ento, ergueu a mo, como que para pegar a vegetao da margem, escorregou e caiu de costas.
	Aqui  muito fundo para ficar de p, e o barro da margem  escorregadio. Bethany, venha at aqui, preciso que algum me puxe.
	Voc no precisa de nada, Bruce. Jogou-se no rio por que quis, saia dele agora.
	No acredito que no queira me ajudar!
	Pode acreditar.
	Donzelas em perigo devem cooperar. A unio faz a fora.
Bethany teve vontade de rir, mas meneou a cabea e perguntou:
	Katie, voc conhece aquela histria infantil onde o heri chama: "Rapunzel, Rapunzel, jogue suas tranas'?  Bethany voltou a ateno de novo para Bruce.  Todas as vezes que ouvia esse conto, em vez de pensar "Que romntico!", eu pensava "Credo!". Esse  o tipo de herona que eu sou, Bruce.
Portanto,  melhor que ache outra mocinha para salvar.
	No estou pedindo que me tire da gua me jogando seus cabelos como se fossem uma corda. Jamais faria isso, eles so bonitos demais. Tudo o que quero  sua mo, querida Bethany, para que eu possa subir na margem e transportar minhas garotas a um lugar seguro.
Ento, como Bethany cruzasse os braos e permanecesse imvel, Bruce olhou para a sobrinha.
	Bem, se Bethany no quer me ajudar, que tal voc fazer isso, Katie Sininho?
	De jeito nenhum, Bruce!  Bethany franziu as sobrancelhas, demonstrando preocupao.  Katie no vai se aproximar da margem.
	Mas voc no quer me ajudar...  Ele fingiu imensa tristeza.
	Nem eu, nem Katie.
	Vo deixar que eu me afogue?
	Sim!
Aquele sorriso constante nos lbios de Bruce estava provocando reaes que Bethany desconhecia.
	Katie, voc vai deixar seu tio Bruce aqui para sempre, para ser comido vivo pelos sapos? No faria isso com seu tio, faria Katie Sininho?
	Bruce, no se atreva a pedir ajuda a Katie.  Bethany olhou para o rosto preocupado da menina.  Isso no  justo, Bruce Hallam.
	Katie poderia me salvar.
	Ela no pode.
	Claro que posso ajud-lo.  Katie deu um passo para a frente.
Bethany a puxou de volta.
	Katie, fique longe da gua.
	Mas, Bethany, se voc no vai deixar que eu o ajude, tem de faz-lo. O rio  muito fundo. Ele se afogar.
	Duvido!
	Bethany, Katie se importa comigo. Se no permitir que minha sobrinha me salve, ento vai ter de fazer isso sozinha.
	No acho que as heronas dos contos de fadas tm de preparar seu prprio plano de resgate. Bem, Katie, no saia daqui. E voc, Bruce Hallam... seu chantagista emocional...
	Sou mesmo bom nisso, no sou? No h necessidade de ficar to desconfiada, minha querida. Minhas intenes so to inocentes!
	Estou duvidando que tenha tido uma s inteno inocente em toda a vida.
	Apresse-se, estou cansado de ficar na gua.
	E eu de ficar nesta lama.
	Vamos, Bethany  Katie a apressou.  V antes que titio se afogue.
	Bruce  um rato d'gua, Katie. E ratos d'gua no se afogam.  Deu mais dois passos com determinao e, por fim, pisou em terra seca.
Bem junto do rio a margem era um pouco mais elevada e tinha algumas plantas aquticas que davam mais firmeza ao terreno. Ali, Bethany estava a salvo, apesar de coberta de lama do ombro at os dedos dos ps. Olhou para Bruce.
Tudo o que voc tem a fazer  chegar um pouco mais perto, Bethany. Apenas se agache e me puxe.
	No sei, Bruce. No confio em voc.
Quem poderia confiar naquele ar zombeteiro?
	O que eu poderia lhe fazer?
	Molhar-me.
	Eu?! Voc  muito desconfiada! Querida Bethany,  s me dar a sua mo e ser bem recompensada.
	De que jeito?
	Com alguma coisa de que voc precisa. Chega de conversa. Salve-me, antes que eu me afogue.
	Ningum, mais do que voc, merece isso.  Bethany agachou-se, estendeu a mo e... dois segundos depois, estava na gua ao lado dele, aps um forte puxo.
Bethany reapareceu na superfcie, indignada, furiosa, tomando flego. A gua era rasa na margem, por isso Bruce pedira ajuda com tanta confiana. No iria pr a criana em nenhum perigo. O rio era fundo no lugar onde ele tinha mergulhado, mas ali era to raso que deveria ter sido difcil para um homem to grande dar a impresso de estar quase afundando.
Bethany abriu a boca para protestar, espirrando gua por todos os lados.
Voc! Seu mentiroso!
Com raiva por ter sido enganada, Bethany comeou a espirrar gua com as palmas da mo em direo dele, at que a zanga de Bethany a deixou exausta, e ela caiu de costas.
Bruce tinha permanecido quieto o tempo todo. Mas, quando Bethany, parou ele passou a mo pelos cabelos ensopados e pelo rosto.
Oh, Bethany... voc me molhou...  falou, dando a impresso de que estava muito triste.
Era demais. Bethany respirava, ofegante, deitada de costas, e de repente comeou a rir. O riso foi ficando mais intenso e acabou numa gargalhada que encheu de alegria a manh ensolarada e silenciosa.
Bruce Hallam, voc  mentiroso e dissimulado, um homem que deveria ter vergonha de si mesmo!
	Por qu? Eu lhe fiz um favor!
	Como assim?  Bethany estava ajoelhada na gua rasa, os cabelos encaracolados muito molhados caindo sobre os ombros, e a camiseta grudada no corpo, revelando o contorno perfeito dos seios arredondados e pequenos. Deveria estar usando um suti, pensou em pnico quando viu para onde Bruce estava olhando.
	Bem, primeiro limpei a lama que estava cobrindo quase voc toda. E segundo, estou vendo-a sob um novo prisma.
	E isso  um favor?  Enrubesceu e se enfiou na gua at o pescoo para se esconder.  Quero dizer, me ver de um modo diferente?
	Acho que tem se escondido da vida e das pessoas. Bethany, esta noite estive pensando...  Levantou e lhe estendeu a mo.  Se no quer ficar aqui como bab de Katie, o que acha ento vir a ser minha esposa?
Bethany prendeu a respirao e olhou para Bruce, espantada.
	O que voc disse?
	Estou pedindo que se case comigo.
	Bruce... deve... ser louco!
	No sou, Bethany. Por que deveria ser?
Por Deus! Parecia que lhe estava oferecendo uma xcara de ch!
Bruce se ps de p, e Bethany permanecia ajoelhada. Ele segurou uma mecha dos cabelos dela e viu que seu rosto empalidecia.
	No me olhe desse jeito, Bethany. Estou lhe oferecendo uma proposta de negcio. Uma soluo prtica para ns dois. Sei que no  contra casamentos de convenincia. E minha proposta no pode ser pior que a de Peter.
Ento, antes que ela pudesse responder, Bruce desviou a ateno para a sobrinha, que estava calada, olhando para os dois da margem do rio, como se a resposta de Bethany fosse de menor importncia.
Katie olhava para os adultos como se estivesse em estado de choque. 
Os cachorros de Bruce tinha vindo da ponte e agora estavam, como duas sentinelas, um ao lado de Katie. O olhar dos ces e da menina eram semelhantes, como se achassem malucos aquele homem e aquela mulher.
Bethany tentava se levantar, mas Bruce ps a mo em seu ombro.
Fique na gua e d uma boa nadada, Bethany. Voc tambm quer entrar, Katie?
A menina olhou para o tio com a boca semi-aberta e o olhar atnito.
Agora, Bruce tinha duas garotas espantadas como companheiras.
	Est molhado, tio.
	A melhor gua  sempre molhada...  Bruce disse com voz solene.  Est muito gostoso, no acha Bethany?
Ela abriu a boca para logo em seguida fech-la, sem emitir nenhum som.
	Bethany est se divertindo tanto que nem consegue falar  Bruce explicou para a sobrinha. Saiu do rio e foi at onde Katie estava, parada, na lama.
Os cachorros lhe fizeram festa, mas a sobrinha nem tanto.
Apesar de a proposta de casamento t-la deixado aturdida, Bethany prestava ateno  menina e prendeu a respirao quando Bruce a pegou no colo.
	Est timo na gua, Katie. Gostaria de entrar para brincar comigo e com Bethany?
Katie olhou para ele por um momento e falou:
	Estou vestida com a minha jardineira.
	 verdade, e no podemos deixar que ela se molhe. No entanto, podemos tir-la e deix-la em cima das botas de borracha. Assim, no se molharo.
	Voc molhou todas as roupas de Bethany  a menina disse com um tom de acusao que fez Bruce rir.
	Sim, mas as roupas de Bethany no so to impor
tantes quanto sua jardineira. Voc no viu que a cala dela tm at um buraco no joelho? Mas compraremos jeans novos para ela, quando vier morar conosco.
Bethany prendeu a respirao, e Katie tambm.
	Bethany vem morar conosco, tio?
	Se conseguirmos convenc-la. Acho que voc poderia me ajudar. Talvez no venha logo, mas, se tentarmos convenc-la... Katie, nossa Bethany est na gua sozinha, esperando algum para brincar com ela. Que tal irmos os dois?
Houve um longo momento de silncio. Katie olhava de um para o outro e ento para os cachorros. Fitou Bethany, que lhe estendia a mo.
	Voc no me deixar afundar na gua, no , tio?
	No tenha medo, Katie querida. Sei cuidar de mulheres muito bem. E espero que possamos persuadir nossa Bethany a deixar que eu cuide dela, como vou cuidar de voc.
Nossa Bethany...
As duas palavras ficaram rodando na cabea de Bethany na meia hora seguinte.
Bruce organizou um jogo maluco, uma espcie de corrida que sempre era vencida por Katie, que era mais leve e no afundava na areia sob as guas. Sem contar,  claro, com os cachorros, que enganavam a todos usando quatro ps.
Ao final de meia hora, todos estavam rindo, exaustos, mas a cabea de Bethany no parara de trabalhar.
Por que Bruce lhe fizera aquela proposta? Estaria pensando que o levara a srio? No fazia sentido.
Faz sentido, sim  contradisse Bruce, como se adivinhasse seus pensamentos.
Os dois adultos estavam sentados na margem do rio, e Katie continuava na gua brincando com os ces.
	Do que est falando?  Bethany se fazia de desentendida.  Eu no...
	No disfarce, Bethany.
Ela engoliu em seco.
	Bruce, voc no est falando srio. No quer se casar comigo.
	No quero me casar com ningum. Pelo menos no no sentido que a maioria das pessoas quer. No desejo um envolvimento romntico. Meus pais destruram um ao outro com as exigncias que faziam, e eu tentei...  Parou de falar e mordeu o lbio.  No estou a fim de entrar numa encrenca igual. Mas com voc pensa do mesmo modo que eu, e se pudermos fazer isso... Bethany, pode ficar aqui em seus prprios aposentos, ter seus animais e seus interesses e ser amiga e me para Katie. O Bem-Estar Social me deixar em paz com seus constantes interrogatrios, que tambm no fazem bem a Katie. Como minha esposa, ela poder t-la para sempre.
	Porm...
	Bethany, voc diz que no fica como bab para no partir seu corao no dia que tiver de ir embora. Pensei sobre isso a maior parte da noite, e, sim, faz sentido. Se se casar comigo, no precisar deixar Katie. Ento, ela ter uma estabilidade real. Preciso tambm de uma anfitri para meu lar, pois recebo, a negcios, muitas pessoas de outros pases. Eles trazem as esposas, e  muito difcil entret-las enquanto os homens discutem. Preciso de uma mulher que me veja apenas como segurana financeira, e nada mais.
Nada mais? Voc quer dizer, sem envolvimento emocional?
	Isso.  Sorriu, persuasivo.  Faremos um contrato estabelecendo o que esperamos um do outro e seguiremos esse contrato  risca. Isso no quer dizer que no possamos ser bons amigos. Tenho certeza de que podemos, ou nunca teria feito esta sugesto. Mas seremos independentes.
	Na noite passada...  ela murmurou, tentando formular as palavras a partir do tumulto de pensamentos que rodavam em sua mente.  Bruce, voc no me tratou como se quisesse ser apenas um bom amigo.
	No. Tem razo, Bethany, e aquilo... bem, acho que foi um erro.  uma mulher bonita, muito mais que muitas que conheo. Disse que me acha atraente, e voc tambm , o que significa que poderemos ter orgulho um do outro, como marido e mulher. No entanto, no iremos alm disso. No sem o risco...
	...de eu me apaixonar?
Katie e os cachorros estavam cavando um buraco na margem do rio e no prestavam ateno aos adultos. Parecia haver apenas os dois a dois metros de distncia um do outro.
	Bethany,  claro que voc no poderia...
	Poderia. E a? Aonde isso me levaria? Como iria acabar? Voc no quer esse tipo de envolvimento, foi bem claro a esse respeito. Bruce, no creio que pudesse me casar sem considerar essa hiptese.
	Mas voc no considerou amor quando seu primo lhe props a mesma coisa.
	No tinha receio de me apaixonar por Peter. Isso nunca iria acontecer. Olhe, preciso ir para casa. Poderia me levar?
	Bethany, est falando srio? No se casaria comigo porque poderia se apaixonar por mim? Isso  ridculo! Romantismo no cabe mais no mundo moderno. Vejo em voc uma mulher adorvel, com um corao capaz de muito carinho. Uma jovem que eu teria orgulho de chamar de esposa. Posso lhe dar um lar slido, estabilidade financeira e um lugar ideal para continuar a cuidar de seus animais. Para sempre, Bethany. Pense
bem, reflita antes de dizer que no.
	J pensei. Por favor, Bruce, leve-me de volta para minha casa. L  o meu lugar, onde poderei ser eu mesma outra vez.

CAPITULO VIII

O espao de tempo que durou a viagem em direo  fazenda de Bethany foi terrvel.
Katie sentara-se no banco de trs, to quieta quanto o pequeno gamb, que dormia no saquinho, entre os seios de Bethany.
Bruce tentou comear uma conversa, mas desistiu diante das respostas monossilbicas que recebia.
Bethany tinha tomado um banho e trocado de roupas antes de iniciarem a viagem. Fisicamente sentia-se confortvel, mas por dentro estava pssima.
Quando viraram para a estrada que levava a sua fazenda, sentiu-se aliviada. Mais algum tempo com Bruce e comearia a ficar louca.
Em comparao  residncia luxuosa de Bruce Hallam, a de Bethany era quase miservel.
As terras estavam encravadas numa floresta, com a vegetao sempre ameaando recuperar aquela rea perdida. A casa era um pequeno bangal de madeira cercado por altas seringueiras e por arbustos de vrios tipos. Anos de negligncia e abandono a haviam reduzido quase a runas. S o amor e a dedicao de Bethany nos ltimos tempos puderam recuper-la e preserv-la, mas no seria por muito mais tempo.
"No ser preciso aguentar durante muito tempo", pensou Bethany, quando o carro parou. No tinha dinheiro para manter o arrendamento e, dentro de um ms, teria de ir embora.
Para onde? Quem podia saber? A nica coisa de que tinha certeza era que teria de se arranjar sozinha.
Katie desceu do automvel, e olhava para tudo com olhos arregalados.
	 bonita, Bethany. Mas... est muito velha.
	 verdade.  Bethany fez um esforo enorme para sorrir enquanto se juntava a Katie.
Bruce tambm desceu da Mercedes e olhava tudo em silncio. Bethany deu uma olhada para ele para tentar ler sua expresso, porm, desistiu. Quem poderia saber o que ele estaria pensando?
	Esta  uma fazenda tpica australiana, Katie  comentou Bethany, tentando prestar ateno apenas  criana.  No  como a de seu tio, onde os banheiros tm vaso sanitrio e sistema de gua encanada e esgoto. Aqui o banheiro fica fora da casa e no tem descarga. Quer ver? Vou mostrar a voc um verdadeiro sanitrio australiano. V como est inclinado? Uma noite, eu estava l dentro no meio de uma tempestade, e o vento, muito forte, carregou tudo. S o assento ficou no lugar. Foi terrvel. Fiquei numa situao ridcula, ali, sentada, sem nada a meu redor. Venha ver como  por dentro, e depois chamarei Caroline, que  a garota que cuida dos meus animais quando no estou em casa. Preciso avis-la de que cheguei e dispens-la de preparar a refeio da noite. Depois disso, mostrarei todas a minhas criaturinhas.
Foi uma estranha excurso. Katie era muito interessada, e indagava sobre tudo o que Bethany fazia para checar se seus animais estava bem. Mas no largava a mo de Bethany, como se tivesse medo que ela, de repente, desaparecesse.
Bruce as seguia em silncio. No perguntava nada, mas Bethany tinha conscincia de que observava tudo com seu olhar inteligente. Olhava os animais, a cozinha, com seus potes de ervas, mas, acima de tudo, a observava.
Bethany mostrara aos dois alguns animais surpreendenela. Viu todos os bichos e exigia uma histria para cada um que ia sendo apresentado.
O que acontecera com a coala-me? Como o canguru se machucara?
As perguntas da menina eram inteligentes demais para a idade, e Bethany se surpreendeu, levando em conta os meses em que a criana ficara em silncio absoluto. Sem falar desde a morte da me, Katie escutara e pensara bastante, vindo a adquirir conhecimento e maturidade.
	Mame costumava me contar sobre animais australianos  a menina comentou no fim da excurso, e virou-se para Bruce.  Tio, se Bethany no pode ir conosco, por que no ficamos por um tempo aqui com ela. Seria como umas frias. Poderamos ajud-la a tratar dos animais.  Suspirou como que oferecendo um sacrifcio supremo.  At usarei o sanitrio de Bethany.
Bruce pegou a mo da sobrinha, sorriu e olhou muito srio para Bethany. Pela primeira vez desde que haviam chegado, se dirigiu a ela:
	Acho que a ideia de Katie  boa. J so mais de quatro horas, e, para voltarmos, sero mais trs de viagem. O que acha de nos acomodar aqui por esta noite?
	Mas eu no tenho...
	...acomodaes?
Estavam em p na pequena cozinha, que era quase preenchida por inteiro pelo corpanzil de Bruce. De um lado, ficava um pequeno quarto e havia apenas mais um cmodo, que era uma estranha sala de visitas que parecia mais apropriada para dar conforto a animais do que a pessoas, mas que, talvez por isso mesmo, era acolhedora.
	Posso ver que est tensa.  Bruce sorriu.  Os rfos tm prioridade neste lugar. Porm, sou prevenido e me lembrei de trazer alguns sacos de dormir. Katie e eu nos acomodaremos na varanda. Ser uma aventura. Podemos ficar?
Bethany olhava para os dois sem saber o que responder. 
Ter Bruce ali, em seu santurio? No havia nem comida em casa...
	Ento, o que planeja comer esta noite, Bethany?
	Acho que h ovos na chocadeira, e posso ordenhar Daisy.
	Daisy?
	 a nica cabra que sobrou  Bethany disse, com tristeza.  Daisy estava no celeiro quando os cachorros selvagens mataram o resto do rebanho. O leite dela  muito bom. Bem,  s o que tenho para oferecer: ovos e leite.
	Est timo para ns  Katie afirmou.  Ovos e leite, so meus alimentos preferidos no jantar. So tambm os seus, no so, tio Bruce?
	S quando a companhia  boa, e esta me parece excelente. Se permitir, Bethany, minha sobrinha e eu adoraramos aceitar seu convite para ficar e passar a noite em sua casa. Apenas nos mostre qual parte da varanda  a melhor.
	Est falando a srio?
	E claro que sim.
	Ento, est certo. Se voc se sujeitar a dormir na varanda, Katie Sininho poder ficar comigo em minha cama, se ela quiser, mas, depois de escurecer, homens estranhos tm de ficar do lado de fora.
	Tio Bruce no  estranho.
	E quase, para mim, Katie. S o conheci ontem.
Bethany se ps a pensar se a varanda ficava longe o suficiente de seu quarto. No o queria perto dela.
"Bem, Bruce Hallam  forte, e homens assim tm suas utilidades. Se ele ia ficar...!
	Haver, no entanto, um custo, caso queria mesmo ficar.
 Bethany olhava para Bruce, enquanto elaborava um plano.
	Tio Bruce tem muito dinheiro. No , titio?
	Pode ser que sim  respondeu para a sobrinha, com os olhos fixos em Bethany.  Mas tenho um pressentimento, Katie, de que nossa Bethany no est se referindo a dinheiro. Por que ser que sinto isso? Estarei certo?
	Certssimo.  Bethany sorriu para os dois.  Sua estada  gratuita porque voc tem apenas seis anos, Katie. Porm, seu tio vai ter de pagar.
	Sim?  Bruce tambm estava sorrindo, mas a expresso de dvida crescia, conforme olhava para Bethany.
Seria timo desequilibrar aquele homem, para variar. No era justo que s Bethany ficasse desequilibrada por causa dele.
	Toda minha madeira est verde, Bruce.
	Desculpe-me, no entendi.
	Estive cortando lenha de algumas seringueiras, mas estou sem madeira velha. Entretanto...
	Entretanto?
Bethany piscou para Katie.
	H uma rvore apropriada perto do celeiro e, a cada nova tempestade, fico pensando que vai cair, mas ainda no caiu.  muito perigoso subir nela para pegar os galhos um por um. Se ela casse seria timo, e teramos madeira suficiente durante anos. Ou pelo menos...
	...at que se mude daqui.  Bruce franziu as sobrancelhas.  Ento quer que eu derrube a rvore gigante como pagamento de nosso pacote de acomodao. E isso?
	 isso. Est bem para voc?
	Bethany...
	Eu o ajudarei, Bruce. Na verdade, costumo derrubar as rvores, mas essa est num pedao de terra perto da gua, e eu no gostaria que casse l.
	Ou em cima de voc.
	No cairia em mim, porque no sou burra. Sei como derrub-la. No entanto, os galhos esto inclinados para um lado. Quer ver?
	No. No quero.
	Sem rvore, sem acomodao. E nem mesmo leite de cabra  Bethany respondeu com firmeza e uma expresso inocente.   um negcio.
	E quanto a Katie? Est propondo que ns trs faamos essa expedio  rvore condenada?
	J disse que a acomodao dela  grtis. Katie Sininho, se voc quer ficar aqui, seu tio ter de fazer o servio. Voc pode ver a rvore da varanda. O que acha de eu lev-la ao lugar onde meus cangurus esto comendo folhas de fcsia, embaixo da janela de meu quarto? Poder cuidar deles e observar o que fazemos ao mesmo tempo. Far isso?
	Prefiro v-los derrubar a rvore.
	Mas voc s tem seis anos, e meus bichinhos precisam de uma baby-sitter. Se prometer ficar aqui e no sair da varanda, eles podero dormir em casa esta noite. O que acha?
	Isso  chantagem  Bruce interrompeu-a, e Bethany lhe deu um sorriso meigo.
	Dois podem fazer melhor do que um, no podem, sr. Hallam? Quero lhe lembrar que usou sua pequena sobrinha para me puxar para dentro da gua esta manh. Agora, se esperar at que eu alimente Ptala e pegue algumas folhas para meus cangurus, poderemos ir derrubar a seringueira.
	Voc deve estar brincando!
Uma hora depois, aps muito esforo, a rvore veio ao cho. Bethany foi olh-la. Tinha sido bela e forte por centenas de anos, e agora jazia ali, sem vida.
Havia muitos meses a queria no cho. Precisava daquela madeira para o aquecimento, e a seringueira forneceria combustvel para dois anos ou mais. S que Bethany no teria todo esse tempo. Nem dois meses, na verdade. Outro proprietrio viria e usaria aquele gigante, a rvore que ela e Bruce haviam derrubado.
Bethany passou a mo no rosto para enxugar as lgrimas. Como poderia ser to fraca a ponto de chorar por uma rvore morta e um futuro que no iria acontecer?
De imediato, Bruce se ps ao lado dela, passou o brao por seus ombros e a puxou de encontro a si.
	No h necessidade de ficar triste, Bethany.  Sorriu.
 Veja, eu estou inteiro.
	No estou chorando por sua causa, convencido.
	Ento por qu?  Bruce apoiou a cabea de Bethany no peito, e ela se abandonou quele contato reconfortante.
	 porque ela est morta.
	A seringueira morreu h muito tempo. Precisa arrumar uma desculpa melhor para chorar, Bethany. No seria porque est prestes a perder a fazenda?
	No.  E com um movimento brusco se desvencilhou dele.  Alm do mais, isso no  de sua conta.
	 claro que . Se tivesse se casado com Peter, no teria de abandonar estas terras. Interferi em seus planos. Voc tem de deixar que eu a compense de alguma maneira.
 Deu um passo na direo dela.  Bethany, se no quer ser minha mulher, deixe-me comprar este lugar para voc.
	No!
	Por que no?
	Porque no quero ficar em dbito com voc. Preciso resolver meus prprios problemas.
	Bethany, voc no aguentar ficar longe de seus animais. No a conheo h muito tempo, mas o suficiente para ter certeza disso. Precisa deixar que a ajude.
	No preciso fazer nada.  Afastou-se mais uma vez, mas Bruce a seguiu.  Peter estava me propondo um negcio sujo. Ia prejudicar Katie, privando-a do que  dela por direito. Incluiu-me nos planos dele porque fui estpida o suficiente para me deixar enganar. E voc no  responsvel por isso.
	Quero pagar.
	No. Voc no quer.
	Como pode saber o que quero?
	Bruce Hallam, at ontem, nem me conhecia. Agora quer me ajudar porque tem pena de mim, e eu no quero sua piedade. Portanto, pare de pensar assim e...  Parou de falar, voltou ao trator e deu partida.
Bruce subiu ao lado dela, e se dirigiram de volta a casa e a Katie, que os esperava na varanda.
	Katie ficou sozinha por muito tempo, Bruce. Por favor, faa companhia a ela enquanto vou cortar um pouco de lenha para o fogo.
	Deixe que eu corto.
	No. No quero mais. seu auxlio. J fez muito, e me deu lenha suficiente para todo o tempo em que eu estiver aqui. Seu dbito est quitado, e posso fazer isso sozinha.
 assim que deve ser. Fui s durante toda a vida e no pretendo perder minha independncia agora.
Virou-se e se afastou sob o olhar indecifrvel de Bruce.

CAPITULO IX

Depois de alimentar Katie, Bethany a ps para dormir em sua cama. Depois, foi ter com Bruce na cozinha.
Para sua surpresa, encontrou-o preparando uma omelete. Arregalou os olhos quando viu uma garrafa de vinho aberta sobre a mesa.
	Essa bebida no  minha, Bruce. Onde a encontrou?
	Trouxe comigo,  claro. Sempre ando prevenido. No vai se trocar?
	Por que deveria?  Sentou-se e olhou para ele.  O que est sugerindo? J lavei as mos. O que mais quer?
	Conheo mulheres que passam horas se preparando para o jantar  ele falou num tom de aprovao.  E voc apenas lava as mos e senta-se  mesa para a melhor refeio de sua vida.
	No  nada modesto em relao a suas habilidades... Prefiro no tomar vinho, obrigada.
	Por que no?
	Porque...
	No confia em si mesma?  Sorriu com ternura.  Bethany, tem to pouca confiana em mim? Juro que no tentarei seduzi-la.
	Eu sei.
	No parece saber.  Virou-se para o fogo.  Est a salvo comigo. Alm de sua aparncia despretensiosa, no h espao para mim em sua cama. Sua varanda est ocupada por animais, e o quintal  uma floresta. J chequei tudo. Um homem sabe quando est derrotado... e eu sei que estou.
	Foi derrotado alguma vez?  Bethany perguntou num sussurro.  Espero que seu aspecto galante funcione muito bem.
	Bethany, o que pensa que sou? Sinto que pensa que no passo de um dom-juan.
	Nunca disse isso.
	Mas parece que pensa assim.
Bethany baixou os olhos.
	Acho que  rico e atraente, Bruce, e deixou claro que no quer se casar, a no ser que seja por convenincia. Quando voc me beijou...
	Imagina que beijo todas as mulheres atraentes que atravessam meu caminho? No mereo isso. No sou um conquistador. Beijei-a porque a achei desejvel, mas aprendi de uma maneira dura que no se deve tomar decises para uma vida quando se est dominado pelas emoes.
	Eu no seria uma deciso para uma vida.
	Talvez no agora, mas, quando pedi que se casasse comigo, era uma proposta coerente.
	No concordo.
	Para mim, era. E acredito que tambm pudesse ser para voc. No aprendeu a separar o corao da razo, Bethany Lister. E uma lio difcil, devo admitir.
	Mas voc aprendeu.
	Sim, aprendi. Todos aprendem um dia. E a mim parece que, quanto mais demoramos para aprender, mais difcil se torna. Ora, cale-se e me deixe preparar sua omelete.  Bruce suspirou.  Vamos ignorar o corao e a razo e nos concentrar em assuntos mais importantes.
	Como o qu, por exemplo?
	Nossos estmagos.  Ele sorriu.  E tomar um pouco de vinho, linda Bethany. Apenas um copo no ser perigoso.
Talvez no. Mas Bethany olhava para Bruce e sentia-se em perigo de se apaixonar perdidamente. Forou um sorriso e ergueu a taa num brinde silencioso.
E, em seu corao, um ideia maluca comeou a germinar. Algo que a Bethany de ontem descartaria como sendo absurda. No concordaria com um casamento de convenincia. Mas talvez...
Se no h perigo em um pouco de vinho, talvez seja melhor tomar dois.  Bethany olhou para Bruce, desafiadora. 
Estava em sua casa, em seu territrio, e talvez no tivesse nada a perder.
A omelete foi a melhor que j comera, talvez porque tivesse sido feita por Bruce, ou devido ao vinho que a acompanhou, ou por causa do momento.
Era o vinho, Bethany disse a si mesma. A bebida era deliciosa. Tomou trs copos. Ento, Bruce sugeriu que fossem para a varanda para terminar a garrafa, e Bethany aceitou.
Enquanto comiam, a noite descera por completo. A lua, que parecia uma bola de prata sobre a montanha, estava to brilhante e clara que dispensaya iluminao artificial.
Bethany pediu licena, deixou o copo e foi verificar se os animais precisavam de alguma coisa. Quando voltou, encontrou Bruce no mesmo lugar, sentado na amurada, olhando para o cu estrelado.
	Este  um lugar muito agradvel, Bethany. Voc tem razo de no querer perd-lo.
	H outros lugares bons. Sua propriedade, por exemplo.
Talvez um dia eu encontre outro santurio.
	Minha oferta ainda est de p. Pode se mudar para minha fazenda como bab de Katie ou como minha esposa.
	As duas posies seriam boas.
	Sim. A segunda  mais permanente, mas em ambas continuaria a ser independente para viver como melhor lhe aprouvesse.
	Mas no quero, Bruce.  Poderia dizer o que sentia?
	Valeria a pena?  Como lhe falei, no posso aceitar um casamento nesses termos. No quando teria de viver perto de voc, v-lo todos os dias, saber que, na realidade, no  meu marido. Seria uma espcie de tortura.
	Tortura?  Bruce se virou para encar-la.  Bethany, o que quer dizer com isso?
Precisava falar. No tinha outra escolha.
	Quero dizer que comecei a me apaixonar por voc. S Deus sabe por que, Bruce Hallam. No era uma coisa que eu queria que acontecesse. Mas voc me beijou na noite passada e alguma coisa mudou dentro de mim. Nunca me senti do modo como me sinto agora.
	Bethany...
	Olhe, sei que voc no quer isso.  Olhava para o cu em vez de encar-lo.  Sei que no quer o que estou lhe oferecendo, mas  isso o que est acontecendo. O amor  uma coisa especial, e aconteceu No h nada que eu possa fazer. Ento achei que voc tinha de saber.
Houve um pesado silncio.
Em algum lugar, perdido na noite, ouviu-se o pio estranho e solitrio de uma coruja.
	Eu no posso...  Bruce comeou a dizer, e ento parou.
	No pode me amar? Sei disso. Apesar de nos conhecermos muito pouco, tenho certeza de meus sentimentos, e lhe digo que, se se casar comigo, ter uma esposa que o ama. Por isso, uma parte de mim diz que no posso me casar com voc, e a outra parte diz que no vou suportar ficar longe. E desse jeito. Pegue ou largue. Mas no pea de novo que eu me case sem saber que te amo.
Bethany parou de falar e fechou os olhos.
Bruce desceu da amurada e ficou de p na grama, de frente para Bethany. Pegou-a pela cintura e ps-se a sua frente.
	Bethany, isso  loucura.
	Por qu?
	Sei que o amor  sua especialidade Bethany, e seria um cego se no tivesse notado. Mas guarde seu sentimento para suas criaturas rfs e para garotas como Katie. Guarde-o para quem precisa.
	No  seu caso?  Sentia uma dor quase insuportvel. Ia chorar, pensou.
Bethany ficou quieta nos braos de Bruce e sentia-se muito bem. Conhecia aquele homem havia dois dias e era como se lhe pertencesse.
	No preciso. Eu me basto, Bethany. Apesar de meu conceito sobre casamento, me casei uma vez e foi um de sastre. Joane e eu nos separamos. Ela odiava a fazenda, o isolamento. Detestava tudo o que eu amava.
	Mas, Bruce, talvez Joane sempre tivesse odiado essas coisas.  Bethany sentia-se desesperada. Estava travando uma batalha com um adversrio que no conhecia, contra sombras de um passado que s podia imaginar.  Talvez no tivessem sido honestos um com o outro em primeiro lugar. J pensou nisso?
	J. Mas minha me, e ento minha mulher... Bem, no quero cometer os mesmos erros. Nem por voc. Faremos um contrato de casamento sem envolvimento emocional, ou nada feito.
	No  justo.
	Tem de ser desse modo. No farei promessas que no poderei cumprir, Bethany Lister, e se no pode controlar suas emoes...
	Quer dizer que consegue manter-se sempre sob rgido controle?  Sentiu raiva. Tinha direito de ficar brava. No era justo. Bruce estava ali, segurando-a em seus braos, fazendo-a desej-lo. E Bethany tinha amor suficiente para os dois.  Est dizendo que no sente nada quando me abraa ou quando me beija? No acredito, Bruce.
Ento, antes que ele pudesse impedi-la, Bethany ergueu-se na ponta dos ps e beijou-o nos lbios.
Como pde fazer uma coisa dessas? S Deus poderia saber. Tudo o que sabia era que fizera o que tinha vontade, e as consequncias logo se manifestariam.
Sentiu que Bruce correspondia ao beijo, mesmo que quase sem querer. As mos dele ainda estavam ao redor de sua cintura, e o corao de Bethany lhe dizia para continuar beijando-o. Era sua nica esperana. Era como uma corda sendo lanada para um nufrago.
	Por favor, Bruce... por favor...
Os braos dele a apertavam.
No primeiro momento, tinha sido Bethany que o beijara, que provocara a paixo, mas de repente no era mais. De alguma maneira, ela tocara em um parte profunda que causou uma reao muito forte.
A carcia de Bruce era possessiva, e no s clamava pelos lbios de Bethany como tambm por seu corpo, num desejo ardente.
A chama da esperana se acendeu na alma de Bethany  medida que o beijo se tornava mais intenso. Segurou o rosto de Bruce entre as mos e continuou a beij-lo. Tinha esse direito. Ele era o homem de sua vida, e era evidente que tambm a queria, que necessitava dela.
Ento, as mos de Bruce se moveram para baixo da camiseta de Bethany, encontrando a delicada curva dos seus seios e a rigidez dos mamilos. Ela ps as mos por baixo da camisa dele, respondendo s suas carcias. O contato com a pele nua a fez estremecer. O cheiro dele, o toque dele...
Como Bruce poderia rejeit-la?
Bethany desabotoou o jeans de Bruce e colocou a mo por dentro, escorregando-a cada vez mais para baixo at que tocou o que procurava.
Bruce comeou a gemer, e Bethany continuava acariciando-o mais e mais. O corpo dele no mentia, mesmo que a boca dissesse o contrrio.
	Bruce, faa amor comigo. Por favor, Bruce, desejo voc como nunca desejei alguma coisa em minha vida...
	Bethany, voc no sabe o que est fazendo.
	Sim, eu sei. Sei que no me quer como uma esposa de verdade, que no me quer para sempre. Entendo que partir amanh, e no estou pedindo que fique. Mas esta noite... deixe-me am-lo do jeito que quero, e me ame tambm. S esta noite.
	Bethany...
	Bruce, no tem de se preocupar com gravidez  sussurrou passando a mo pelos cabelos dele.  Estou protegida. No confio em Peter, e por isso tomei precaues.
Logo que pronunciou o nome do primo, Bethany percebeu que cometera um erro grave. Sentiu o corpo de Bruce se retesar. A meno de Peter o trouxe de volta  realidade.
	Bethany, o que est dizendo?  Deu um passo para trs, olhando-a como se tivesse visto um fantasma.
	Eu no queria dormir com Peter, Bruce. Mas ele j tentou outras vezes. Pensei que, estando legalmente casados, poderia ter trabalho para refre-lo, e seria um desastre se isto acontecesse e eu ficasse grvida. Ento eu...
	Preparou-se para seu marido - ele ironizou.  E agora, est se oferecendo a um marido potencial. Qual o preo desta vez, Bethany?
As palavras de Bruce foram cruis.
	No! No  o que est pensando!  exclamou, sem entender muito bem o que estava acontecendo.
Havia se arriscado, oferecera tudo o que tinha, e perdera. Bruce no confiava nela. Como pudera ter esperana de que ele aprenderia a am-la?
	Sinto muito, Bruce. Eu no deveria...
	No, no deveria.
	Esquea o que eu disse.
	Acho que  melhor voc ir para a cama, Bethany. Creio que ser melhor para ns dois que no nos encontremos mais. Desculpe-me se minha proposta de casamento fez com que tivesse falsas esperana. Iremos embora logo que amanhea. Boa noite.
Bethany fechou os olhos. Queria que o cho se abrisse a seus ps e a tragasse.
Mas nada aconteceu. Teve de subir os degraus da varanda, atravess-la e entrar em casa.
Duas horas depois, no escuro, sem poder dormir, Bruce conversava consigo mesmo:
 Fui um tolo uma vez na vida.  Desviou o olhar da casa.  Mas nunca mais. Mantenha sua razo, Bruce Hallam, e se afaste daqui o mais depressa possvel. V embora antes que seu corao tome decises das quais se arrepender pelo resto de sua vida.

CAPITULO X

Bruce e Katie deixaram o bangal antes das 'oito horas da manh seguinte.
	Falei aos homens que estaria de volta ao meio-dia, Katie. Tenho de pegar o feno e...
	O sr. Craig pode fazer isso.  Katie estava sentada na cozinha em frente dos ovos mexidos que olhava sem interesse.  Ele sempre faz esse servio. Por que hoje  voc que tem de faz-lo?
	O sr. Craig ainda est de frias  Bruce respondeu, impaciente.Termine seu desjejum, Katie. Temos que ir agora.
Bruce e Bethany evitavam se olhar. O que acontecera entre os dois na noite anterior fora muito forte, e no queriam se enfrentar. Depois de servir o caf da manh, ela os deixou e foi trabalhar com seus animais, at que tio e sobrinha estivessem prontos para partir. Ento, com relutncia, foi at o carro para se despedir.
Katie passou os braos ao redor do pescoo de Bethany e comeou a chorar.
	Nunca mais vou ver voc.  Soluou.  Nunca mais!
	 claro que vai, querida.  Bethany olhou para Bruce.  E se eu fosse at sua casa daqui a algumas semanas e pegasse Katie para passar alguns dias comigo... sozinha?
Katie virou-se para o tio.
	Posso, tio Bruce?  Franziu as sobrancelhas e acrescentou:  Mas tenho de vir sozinha? Voc no poderia vir tambm, tio?
	Costumo estar ocupado com o trabalho da fazenda, Katie. Mas no vejo por que voc no possa vir visitar Bethany.  muito gentil da parte dela, fazer esse convite  completou, com voz fria e impessoal.
Bethany mordeu o lbio para no romper em pranto.
	No poderei ir busc-la logo, porque no sou dona deste lugar, mas em um ms ou dois irei v-la, Katie Sininho. Prometo.
	Voc vai mesmo sair daqui?  Bruce indagou.
	No tenho escolha.
Ele abriu a boca para lhe falar algo, mas foi impedido por um gesto de Bethany.
	Nenhuma escolha, Bruce.  Sorriu, triste.  Prometi a voc que no me casaria com Peter e no vou voltar atrs. Nem mesmo por meus animais.
	Mas, Bethany, voc no ter problemas com ele?
	No. Ficarei bem.  Engoliu em seco.   melhor irem agora. O gado... o feno... Lembra?
	 verdade. Tenho de alimentar os bois.  Bruce me neou a cabea, como que para afastar maus pensamentos.
 Temos de ir. Obrigado por sua hospitalidade, Bethany.
Foi a ltima coisa que disse. Katie estava no banco de trs, e houve um longo momento de silncio quando Bruce e Bethany olharam um para o outro em lados opostos do automvel.
Ento, se foram, e Bethany ficou sozinha para enfrentar o futuro adverso que estava por vir.
Bruce partiu com a sensao de que lhe tinha sido oferecida alguma coisa que muitos homens gostariam de ter, mas ele recusara, cruel. Mas fizera o que devia ter sido feito.
Bethany sentia-se derrotada e extenuada, como se tivesse levado uma surra, ferida na mente e no esprito. O que viria em seguida?
Os dias que se seguiram foram de tristeza e angstia para ela, que tentava se ajustar s mudanas que deveria fazer.
No podia ficar ali. No tinha dinheiro para pagar o aluguel, precisava se mudar.
O ltimo dos cangurus grandes tinha sido solto na natureza, e os pequenos logo completariam seu estgio de cli-matizao na floresta. Se iniciasse algum programa, seria forada a ficar por mais uns dois meses at que no precisassem mais dela, e Bethany s tinha condies de pagar o aluguel de arrendamento at o final do ms.
Sendo assim, depois de alguns dias, deu incio a uma jornada de cinquenta milhas para levar seus bebs a um casal de meia idade que possua uma fazenda similar  dela. Essas pessoas a tinham ajudado no treinamento, eram amigos, e ambos ficaram satisfeitos em v-la, mas tristes pelo fim de seu abrigo de animais.
	Oh, Bethany, voc lutou tanto!  Edna Walter ajudava Bethany a tirar os bichinhos do carro.  No  justo.
	Sei que no .  Abraou os dois pequenos cangurus, se despedindo.  Mas  o que tem de ser feito. Estou contente por eles terem onde ficar e serem bem cuidados.
	Achou um lar para seus filhotes, mas e quanto a voc?
Para onde ir?  Edna a conduziu para a sala de visitas, que era muito parecida com a de Bethany.  Pode ficar aqui durante um tempo. Com o aumento do nmero de animais, sua ajuda viria a calhar..
	Voc  muito boa e gentil, Edna.  Notou a expresso preocupada dos amigos.  Mas sabem muito bem que no precisam de mim. Daro conta do recado com a eficincia de sempre.
	Mas para onde vai?
	Voltarei a minha antiga profisso. Vocs sabem melhor do que ningum que  necessrio capital para esse servio, e no h outro modo de consegui-lo a no ser trabalhando. Procurarei o veterinrio para o qual eu trabalhava.
	Ento vai voltar para a cidade?  Edna franziu as sobrancelhas.  Mas voc  uma garota do campo, Bethany. No sobreviver l.
	Sobrevivi nela durante anos. Posso faz-lo de novo.
	No sei... Bethany mas voc me parece muito sozinha.  Edna suspirou.  Talvez o que esteja acontecendo seja para melhor. Pode ser que tenha chegado o tempo de sair da fazenda, para conviver com pessoas jovens, encontrar um namorado...
	No quero isso.
	Eu sabia.  Edna a olhou com desconfiana.  Voc est diferente. Encontrou algum, no encontrou, Bethany?
	Como voc...
	Eu a conheo h muito tempo, no pode me enganar. Ento, quem  ele e por que est to triste?
	Voc acertou. Conheci algum, mas ele no me quer. Na verdade, no quer ningum.
	Esse homem  um tolo. Direi isso a ele, se voc quiser. De quem se trata?
	Ningum que voc conhea. No frequenta seu crculo de amizades. Alis, no tem nada a ver comigo tambm.  Quer-lo e am-lo  como desejar a lua. No h esperana. Terei de superar sozinha e recomear.
Sem os animais, a fazenda parecia vazia. Havia apenas as galinhas e Daisy com seu cabritinho. Bethany levou Daisy para a fazenda vizinha, onde se criavam cabras. Os donos ficaram muito satisfeitos com a aquisio, mesmo sendo em se tratando de um animal temperamental como Daisy. Ficaram tambm com as galinhas. S restava a Bethany juntar seus pertences e tentar arrumar um emprego na cidade.
Antes, porm, tinha de dar uma satisfao ao corretor de imveis e a, sim, seria o fim.
Olhou para a rvore que ela e Bruce haviam derrubado e sentiu-se feliz. Aquela madeira serviria de fonte de aquecimento durante anos e, mesmo que no fosse ela a aproveitar, estava contente por ter evitado que a seringueira se perdesse no lago.
Na manh seguinte, foi at o corretor imobilirio para fazer o acerto final, e o homem a olhou como se ela fosse louca. Ouviu sua explicao durante trinta segundos, a expresso cada vez mais surpresa, e ento cortou a conversa:
	Srta. Lister, no estou entendendo. Como pode estar entregando as chaves se  a nova proprietria do lugar?
	Proprietria?!
	Recebi um telefonema dos antigos donos h trs dias. Disseram-me que receberam uma oferta irrecusvel e que a compradora era a srta. Bethany Lister. Instruram-me para encerrar o arrendamento e passar o ttulo de propriedade  senhorita.
	Mas...
	Tenho certeza de que no estou equivocado. Eles confirmaram por fax na mesma manh. Ah! H tambm uma carta para voc, marcada como "pessoal". Chegou ontem com uma anotao de que, como o remetente no tinha o nmero de sua caixa postal, pedia que eu mesmo fizesse a entrega.
O corretor arrumou os culos sobre o nariz e mexeu numa pilha de papis at encontrar a carta, que entregou a Bethany. Ela olhava para o homem como se no o estivesse vendo. Olhou para o envelope e pegou-a com os dedos trmulos. Tudo o que tinha a fazer era rasg-lo e ler. 
Enfim, o fez.
"Com nossos agradecimentos. Devemos isso a voc, Bethany. Nossa nica exigncia  que no esquea do que prometeu a Katie Sininho.
Katie e Bruce."
Presa  carta, a escritura da fazenda.
Durante um longo momento, Bethany no conseguiu respirar. Ficou olhando para o papel e para a escritura como se olhasse para uma coisa que no fazia sentido.
Bruce comprara a fazenda para ela. Dera-lhe um presente que valia milhares.
"Devemos isso a voc", ele dizia. Mas Bruce no lhe devia nada.
	Gostaria de se sentar?  O corretor se mostrou preocupado, pois Bethany parecia estar em estado de choque.
	No... Desculpe-me. Mas... deve haver um engano. Acho que o verdadeiro proprietrio da fazenda  um homem chamado Bruce Hallam.
O corretor olhou para a escritura nas mos de Bethany e a corrigiu:
	E o seu nome que est escrito a, no ? No diz nada sobre algum de nome Bruce Hallam.
Bethany respirou fundo.
	Entretanto,  a ele que as terras pertencem. O senhor me desculpe, mas tenho de esclarecer tudo.
	Faa isso, senhorita, mas no precisa se preocupar com o aluguel enquanto verifica. No que me diz respeito, a fazenda  sua. Se eu tivesse um parente rico que quisesse me dar um presente, eu agradeceria muito e aceitaria de bom grado.  isso o que eu faria.
Mas no era o que ela faria, Bethany pensou enquanto virava  esquerda e pegava a estrada para sair da cidade. Se Bruce Hallam queria bancar o parente rico, podia fazer isso com outra pessoa. No iria viver numa terra comprada por ele. Seria a mesma coisa que casar-se com Peter. At uma semana atrs, nem ao menos conhecia Bruce Hallam, e agora... agora estava apaixonada por ele a ponto de pensar que iria enlouquecer.
No queria acrescentar gratido a suas emoes.
Bethany decidira viajar para a fazenda de Bruce no calor do momento. No entanto, se esquecera de um fato essencial. No sabia como chegar at l. Estivera em sua propriedade uma vez. Sabia que era perto das Montanhas Azuis, ao norte de Sydney. Lembrava-se tambm de que passara pela pequena cidade de Cooneera algumas milhas ao sul. Seria fcil encontrar Cooneera, mas depois disso estaria perdida.
Todas as estradas do campo pareciam iguais, pensou em desespero, ao virar numa trilha, e depois noutra. Nas duas viagens de ida e de volta da fazenda de Bruce, estivera fragilizada emocionalmente, e a ltima coisa em que pensara fora em prestar ateno  sinalizao e ao relevo do lugar. Agora se xingava de tola.
Por fim, voltou a Cooneera. Viajara a tarde toda em seu velho carro, e estava escurecendo. Teria de esperar at o dia seguinte para encontrar Bruce e, se no quisesse passar a noite no carro, precisaria encontrar um lugar para ficar.
Cooneera no poderia nem ser chamada de cidade. Tinha uma loja onde se vendia de tudo, uma pequena escola, duas igrejas e um barzinho decrpito.
Bares na zona rural eram obrigados a ter quartos para alugar. Bethany olhou com desconfiana para o prdio caindo aos pedaos, mas no tinha escolha. Ou passava a noite em Cooneera ou desistia e voltava para casa.
"Desista e saia daqui", lhe sussurrou o bom enso. Mas fugir era coisa de covarde. Bethany no podia aceitar o presente. No conseguiria viver com essa imerecida generosidade.
Suspirando de cansao, estacionou atrs de uma fileira de caminhes em frente do bar, desceu e entrou.
Para sua surpresa, o bar estava em bom estado. O salo era limpo e quase aconchegante. S havia homens, e, quando entrou, todos se viraram para olhar a recm-chegada. Bethany corou quando percebeu os olhares de admirao que despertava nos desconhecidos. Os bares australianos ainda eram apenas de domnio masculino.
Bethany tentava parecer indiferente conforme caminhava at o balco para falar com uma senhora de meia-idade que parecia ser a proprietria e que tambm olhava para Bethany com curiosidade. Um dos fregueses mais jovem deu um assobio de admirao, e a mulher pegou um pano de prato que atirou na cabea do jovem.
	J chega, Ted Barnett!  disse com severidade, enquanto os companheiros de Ted riam.  Deixe a garota em paz.  Virou as costas, no dando ateno aos protestos do rapaz, e encarou Bethany.  Sim, senhorita, em que posso servi-la?
	Gostaria de um quarto para esta noite.
O salo pareceu entrar em erupo. Ofertas de hospitalidade vieram de todos os lados, e nenhuma delas tinha o mnimo de respeito. A senhora teve de falar alto para ser ouvida.
	Mais uma gracinha e eu fecho o bar at segunda-feira!  gritou, com as mos na cintura.  E no pensem que ficar s na promessa. Mais uma piadinha de mau gosto e fecho!
Os homens olharam de Bethany para a mulher e retomaram a conversa no ponto em que estavam quando ela entrou.
	No ligue para eles, querida. Esses tolos s querem beber e se divertir um pouco. Acredite ou no, quase todos tm esposas e filhos, e se voc, por acaso, aceitasse a oferta de algum deles, decerto fugiria correndo. Agora, deixe-me mostrar-lhe nossas acomodaes. So limpas e confortveis. Durmo logo no incio da escada, portanto, so seguras tambm.
Sem esperar pela resposta, a boa senhora levou-a um quarto no primeiro andar e olhou para Bethany com curiosidade.
	O preo  trinta dlares, incluindo o caf da manh. O jantar custa cinco. Costumo servir torta e batatas, ou bife e batatas.  Hesitou e completou:  Mas posso fazer uma salada, se preferir.
	Obrigada. Bem... o motivo de eu estar aqui  que estou perdida. Passei a tarde tentando encontrar uma fazenda. Desisti de procurar porque ficou muito tarde, mas gostaria de encontr-la de manh.
	Fazenda de quem? Num raio de trinta milhas, conheo todo o mundo, desde o cidado mais velho at os cachorros.
No h nada que no oua neste bar.
	O lugar que procuro pertence a Bruce Hallam.
	Bruce Hallam...  A mulher pareceu interessada e, pela primeira vez, observou Bethany, que usava cala jeans e uma camisa clara; seus cabelos encaracolados estava presos, e ela parecia muito respeitvel, mas no era a respeitabilidade de Bethany que estava em questo.  Bruce Hallam... Ento, acho que  a jovem sobre a qual todos esto comentando.
Bethany franziu o cenho.
	Desculpe-me. No sei a que est se referindo.
	Voc deve ser a jovem de Bruce.  Sorriu.  Aqui no se pode esconder nada. Estou to contente por ele! Era hora de aquele homem bonito encontrar um moa decente, para variar.
	Eu no...
	No diga que no estou certa.  A mulher olhava para Bethany com indisfarada alegria.  Acho que atingi o ponto certo. Ningum fica vermelha sem motivo.
	Mas... como...
	H dez dias, Bruce Hallam falou a seus empregados que queria a fazenda s para ele durante alguns dias. Pagou os empregados e deu-lhes frias. Ento, algum o viu dirigindo pela cidade com uma mulher no carro, uma jovem de cabelos cacheados, castanhos. Depois, ficamos sabendo que ela se fora e ele foi atrs dela, pois teve de chamar o pessoal de volta para que pudesse se ausentar da fazenda.
E desde ento a pequena sobrinha, que todos pensavam que fosse muda, est falando como uma matraca, e me disseram que sempre cita uma tal de Bethany. Os empregados da fazenda dizem que Bruce anda de um lado para o outro como se fosse um urso que tivesse sido acordado da hibernao: desorientado e de pssimo humor.
A dona do hotel cruzou os braos e perguntou:
	Voc  ou no  Bethany?
	Sim...
	Bethany...  A mulher suspirou, encantada pela histria de amor que descobrira.  Que lindo nome! E agora voc est de volta. Desejo a vocs toda a felicidade, querida, e farei o possvel para ajudar. No vou cobrar nem um centavo. Se conquistou o corao de Bruce Hallam, adote tambm a pequena Katie e faa os dois muito felizes.
	Senhora...
	Madge Trotter.
	Sra. Trotter, no sei do que est falando. Est tirando concluses precipitadas. Mal conheo Bruce Hallam.
	Voc esteve na fazenda dele?
	Sim.
	E ele esteve na sua?
	Sim, mas...
	Bem, meu marido casou-se comigo depois de um tiroteio. No engane nosso Bruce, garota. Depois de tudo o que ele passou...
Bethany respirou fundo. Parecia que estava de volta  lama da fazenda de Bruce e afundava cada vez mais.
	Sra. Trotter, eu no...  gaguejava sem saber o que dizer.  Senhora, eu no sei...
	O que voc no sabe?
Bethany fechou os olhos. Achava que no tinha o direito de perguntar, mas no conseguiu se conter:
	Diga-me o que quis dizer com "depois de passar por tudo o que ele passou". Est se referindo  morte da irm e ao divrcio de Bruce?
Silncio.
Bethany encarou Madge Trotter, que a olhava, estupefata.
	Voc no sabe?
	O que eu no sei? No conheo o sr. Hallam muito bem. S nos encontramos h dez dias, e eu...
	Est louca por ele, no est?
Bethany no conseguiria mentir.
	Sim, estou. Sei que h obstculos, mas no conheo quais so.
	Poderia perguntar para qualquer um da cidade. Aqui todos sabem o que houve.
	No conheo ningum por aqui a no ser a senhora. Pode me contar?
Madge Trotter respirou fundo, olhou para Bethany por um longo momento como se a estivesse avaliando e se dirigiu ao topo da escada.
	Roy!  gritou com uma voz que poderia acordar um morto.  Tome conta do bar.  Entrou no quarto de Bethany e fechou a porta.  Vou explicar contra o que voc est lutando, menina.  a primeira esposa dele, Joane. Eles se casaram muito jovens, e Joane estava apenas interessada na aparncia e no dinheiro de Bruce. Logo ficou enjoada de tudo o que a cercava, pois no gostava de viver na fazenda. Posso contar-lhe muitas histrias a respeito dela, mas acabaria por entedi-la.
	Mas Joane se foi  Bethany disse com cautela.  Est me dizendo que ele ainda a ama?
	Acho que a amou apenas durante o primeiro ano de casados. S um louco poderia amar aquela mulher. Joane agia mal, mas Bruce aceitava tudo. Sempre a recebia de volta. Mas, da ltima vez, ela levou o que ele mais amava na vida, o que acabou com ele...
	O qu?
	A filha deles.  Madge murmurou com pesar.  Era pela menina que Bruce sempre a aceitava de volta. Amava muito a criana, e Joane era a me, afinal. Mas da ltima vez, Joane estava completamente desequilibrada e levou a garota consigo, coisa que nunca havia feito, nunca se interessara pela menina. Fez isso s para magoar Bruce ainda mais. Entrou no possante carro esporte, dirigiu pela estrada como uma louca, em excesso de velocidade e... se matou, e tambm  filha.
Na manh seguinte, Bethany acordou como se no tivesse dormido. Ficara deitada quieta na escurido pensando no que acabara de saber.
Como lutar com obstculos desse porte?
Sentira-se infeliz por perder a fazenda. Quanto Bruce sofrera com sua perda irreparvel? Quanto lhe custara ir a um pas estranho para buscar uma garota que no era sua filha e abrir seu corao para tentar amar de novo?
E ali estava Bethany, tambm pedindo para ser amada e para que ele se expusesse mais uma vez  dor e  traio!
Talvez Bruce acreditasse que, se expondo, arriscaria tambem a vida de Katie. J cometera um erro irreparvel no passado. Quem poderia culp-lo por agir apenas com a razo agora?
Tinha se oferecido para se casar com ela. Que tipo de contrato Bruce faria?
O que Bethany deveria fazer agora?
Levantar-se da cama e ir v-lo, ordenou a si mesma. Devolver a escritura da fazenda e fazer uma ltima tentativa de fazer parte da vida dele. Tinha de faz-lo ver que podia confiar nela. E se Bruce no quisesse? Ento, teria de ter fora para ir embora, porque magoar Bruce lhe custaria mais que perder a prpria vida.

CAPITULO XI

Bruce estava perto dos estbulos quando Bethany estacionou na frente da casa.
Ela teve vontade de fugir, mas respirou fundo por trs vezes, desligou o motor e foi at a porta de entrada. Bateu e esperou.
Bruce ajudava um empregado a descer uma pequena gua preta de um caminho. Viu o carro de Bethany chegando, mas no se moveu. No sorriu, nem foi receb-la. Apenas ficou imvel.
O corao de Bethany saltava no peito. "Deus do cu, como enfrentar uma situao como essa?"
Enfim, Bruce se aproximou.
	Ol, Bruce. Espero que no se importe por eu ter vindo aqui, mas... preciso falar com voc.
	A respeito do qu?
Como boas-vindas, a frase funcionou como um balde de gua fria.
Bethany foi at o carro, pegou uma pasta de papelo e entregou-a a ele.
	Disto. De seu presente. Estou aqui para dizer-lhe que no posso aceitar. No quero, nunca tive essa pretenso e quero que aceite de volta.
Havia um outro homem dentro do caminho que transportara o animal.
	Pegue.  Bruce deu ao homem as rdeas da gua.  E a leve para os estbulos, Charlie. Alcano voc em instantes. Venha ao escritrio srta. Lister. Prefiro que minha sobrinha no a veja.
Bethany gelou. No havia restado nem um pouco de amizade? Como ele a chamara? Srta. Lister? To formal, to frio... Tinha sido reduzida a apenas uma conhecida, nada mais.
Sem nenhuma palavra, Bruce a conduziu ao escritrio, construdo no final da casa. Apontou uma cadeira e sentou-se na outra extremidade da grande mesa.
	Agora, srta. Lister, a senhorita disse que viria ver Katie no final de um ms. No a estava esperando antes disso. Qual  o problema?
	Bruce, no...
	Diga-me o que quer, Bethany. Estou ocupado.
Bethany mordeu o lbio. Como iria lutar com tanta indiferena? Teria fora suficiente?
	Queria apenas dizer que no quero seu presente.  Ps a escritura da fazenda diante dele.  Encontrei um lar para meus animais e j estou providenciando minha mudana. Em breve, estarei saindo da fazenda e no precisarei mais dela. Alm do mais, no tenho o direito...
	Devo isso a voc, Bethany. Sua ao de desistir de casar-se com Mayberry significou muito para minha sobrinha, que vai herdar o que de direito lhe pertence. Alm do mais, voc a persuadiu a voltar a falar. Estou muito agradecido, e costumo pagar meus dbitos. Aceite, por favor.
	Voc est me comprando. No vu aceitar isso para aplacar sua conscincia, Bruce Hallam.
	O que quer dizer com comprar? No tive...
	Est me ressarcindo por no poder me amar. Tem medo de me amar, medo que eu seja uma outra Joane e magoe voc e Katie, do mesmo modo como Joane magoou sua filhinha. Voc no confia...
	Quem lhe contou a respeito de Joane?
	Isso no importa. Mas eu sei de tudo... e... sinto muito.
	No tem de sentir nada. A morte dela e de Laura foi h muito tempo.
	E voc ainda est ferido. Bruce, foi magoado demais para querer recomear. Mas  o que precisa fazer. J tem o amor de Katie.
	E  tudo de que preciso  respondeu com rispidez.
 No v que est pedindo o impossvel? Pedir para confiar em voc...
	Se me ama, confiar em mim, apesar de sua mente dizer o contrrio.  Fez uma pausa.  Bruce, o que me pede para fazer  ainda mais difcil do que isso. Como pode pensar que eu o magoaria e a Katie, como Joane fez? Precisa saber que eu jamais faria uma coisa dessas.
Preferiria morrer...
No conseguiu dizer mais nada. As lgrimas estavam quase aflorando a seus olhos, mas um resto de orgulho impediu que chorasse. Sentou-se, plida e em silncio, e olhou para o rosto severo e sem expresso do homem que amava.
Bruce no se mexia. Era como juiz e jurado ao mesmo tempo, e Bethany estava sendo condenada sem que ele proferisse uma palavra.
Precisava ir embora. Tinha de ir antes que rompesse em pranto, parecendo ainda mais tola. Levantou-se e conseguiu empurrar a escritura da fazenda em direo dele.
	Pegue sua terra de volta, Bruce.  tudo o que peo e  por isso que estou aqui. No quero seu presente e no te amo com o objetivo de conseguir vantagens. Se eu ficar com essa fazenda, me sentirei mal todos os dias.
	E o que far?  Bruce pegou a escritura e perguntou com voz impessoal.
Bethany caminhou at a porta e olhou para trs, com o queixo erguido e um olhar de desafio.
	O que eu farei no tem nada a ver com voc, Bruce Hallam. Quero apenas ficar o mais longe possvel e recomear minha vida.
	A escritura estar aqui, caso mude de ideia.
	Isso no vai acontecer. Em algumas coisas, sou to implacvel quanto voc. E tambm to estpida quanto.
Bethany saiu do escritrio achando que a reao de Bruce havia sido fria e distante e que no havia mais nada que pudesse fazer.
Durante muito tempo depois que ela saiu, porm, Bruce permaneceu imvel, sentado, com os cotovelos apoiados na mesa, com a cabea entre as mos, olhando para a porta fechada.
Teria sido loucura mandar Bethany embora?
Seu corao dizia que sim. Mas a barreira que erguera para se proteger parecia intransponvel.
	No posso pr a vida de Katie em risco  disse para si mesmo, e as palavras pareceram sem sentido no silncio da sala.
Tudo o que tinha a fazer era tentar transpor essa barreira, seguir Bethany e... am-la.
E se expor de novo? Abrir seu corao e comear a sofrer mais uma vez? Mas o sofrimento j havia comeado.
	Voc est sendo estpido e cruel, Bruce Hallam. Se eu a amar, e ela se for...
Bethany no o magoaria, e nem faria Katie sofrer, uma voz lhe dizia. "Deus do cu, Hallam, confie em voc, em seu julgamento. Ela  uma mulher num milho!"
	Confiei em mim quando me casei com Joane e veja no que deu!
"Agora  diferente. Bethany  diferente."
	Mas se cometer outro erro... vou expor a mim e a Katie. Amare perder  caminho certo para a loucura.
	Por que Bethany no foi me ver?  As palavras foram pronunciadas com voz chorosa, cortando o dilogo de Bruce com sua conscincia, trazendo-o de volta  realidade.
Viu a sobrinha parada  soleira, com os olhos marejados de lgrimas.
	Katie Sininho...
	Eu a vi da janela de meu quarto, mas ela j estava entrando no carro, e quando cheguei ao quintal, j tinha ido. E no foi me ver...
	Ainda no fez um ms, querida. Bethany disse que viria depois desse prazo.
	Mas estava aqui. Veio agora. Por que no ficou?
	Katie, Bethany no pertence a este lugar.  Levantou-se e pegou a sobrinha no colo.  S voc e eu moramos aqui. Somos uma famlia. Bethany  uma moa muito boa, mas  apenas uma visita. No  uma de ns.
Katie meneava a cabea sem conseguir entender.
	Bethany  uma de ns, tio! E ela estava chorando. Eu vi, e queria consol-la, mas Bethany se foi antes que pudesse alcan-la. Tio Bruce, Bethany precisa de ns da mesma maneira que precisamos dela.
	Ns no precisamos...
	Sim, precisamos, titio : Katie afirmou, com uma firmeza surpreendente. Comeou a espernear no colo de Bruce, obrigando-o a coloc-la no cho.
E aquele pequeno ser enfrentou-o com a expresso mudando de tristeza para raiva.
	Ns precisamos de Bethany! Ela  nossa. Nos deu carinho e amor e nos faz felizes. Quando est aqui,  como se eu tivesse mame comigo outra vez. Voc ri, e ela tambm. At os cachorros gostaram dela.  maravilhosa at coberta de lama. Ns a amamos, e voc a mandou embora sem que ela fosse me ver...
	Eu no a mandei embora.
	Sim, mandou!  Katie estava frustrada, e as lgrimas escorriam por seu rostinho encantador.  Mandou  repetiu, soluando.  Bethany no iria se voc no tivesse mandado. No sem falar comigo. Tenho certeza, porque sei que ela te ama. Eu sei! E se voc no sabe  porque  burro!
Era demais para uma garota daquela idade. Katie olhava para o tio, chorando, e em seguida se afastou, correndo.
Bruce ficou parado, sem reao, com as palavras da menina ecoando em sua cabea.
"Ela no iria se voc no tivesse mandado."
Era verdade. Bruce sabia disso, como tambm sempre soubera quem era Joane de fato. Sempre tivera certeza de que um dia ela iria embora.
Como sabia que Bethany ficaria para sempre.
"Se voc no sabe  porque  burro!"
 Tambm isso  verdade, Bruce Hallam  disse para si mesmo.  Sabe que Bethany te ama. Seu burro, seu tolo, o que fez? Deixou-a ir... Traga-a de volta. Ame-a... e deixe-se amar.
Deu um passo em direo  porta, mas nesse momento o telefone tocou.
Bethany pisou fundo no acelerador assim que passou pelo porto da fazenda de Bruce. Queria se distanciar dali o mais rpido possvel, mas a distncia no era suficiente para aplacar a dor que lhe corroa o corao.
O carro devia ter achado o caminho de volta sozinho, pois Bethany no se lembrava de ter dirigido, e s por um milagre no acontecera algum acidente. E agora? O que faria de sua vida?
No sabia a resposta, nem teve tempo para pensar, porque, quando chegou  fazenda, Peter a esperava. O noivo abandonado viera reclamar a noiva.
Peter parecia estar esperando havia algum tempo. Bethany no percebera a presena dele antes de entrar em casa. Esperto, ele tinha estacionado o automvel fora de vista, mas, quando Bethany entrou, pelos fundos, encontrou-o sentado  mesa da cozinha com um prato de ovos e algumas torradas diante de si.
Bethany tinha muitas coisas para dizer ao primo, mas no estava em condies de falar, e tudo em que pde pensar era que Peter estava comendo sua comida. Devorava seus ovos, pensou com raiva. Depois do que tentara fazer Katie, ainda podia sentar-se ali, tranquilo, e comer os ovos que Katie e Bruce haviam encontrado.
A dor das ltimas horas a estava esmagando, e ainda tinha de aguentar aquele sujeito odioso.
Era tudo culpa dele! Tinha vontade de pegar o prato, jogar tudo em cima de Peter e sujar seu terno imaculado. Mas conseguiu aparentar calma e parar  soleira.
	Voc...
	Bethany!  Peter empurrou o prato e olhou para ela.
	J era tempo de chegar. Onde esteve?
	No  de sua conta, Peter.
	No?
De repente, a ira de Bethany se transformou em medo. Peter Mayberry era feio e atarracado, e seus olhos mostravam que no era uma boa pessoa. Tinha um olhar de pura malevolncia.
	E, sim, Bethany  disse-lhe com a voz macia como seda. Caminhou at ela e fechou a porta.  Voc me enganou. Por sua causa estou arriscado a perder dois milhes de dlares.
	O dinheiro no  seu  respondeu sem se desviar.
	No sei que truques usou para que o pobre Oliver fizesse o testamento em seu favor, mas...
	O que fiz ou deixei de fazer no lhe diz respeito. Oliver no tinha parentes a quem deixar a fortuna.
	Com exceo dos empregados, que foram fiis a ele por toda uma vida e...  Era difcil para Bethany se concentrar no que tinha de falar quando todo o seu ser ansiava por chorar pelo homem que amava e que a rejeitara mais uma vez.  E uma neta, uma criana rf que precisa da herana.
	Quem liga para a criana?! Ela deveria ter morrido no orfanato, longe daqui. Fui idiota e me esqueci de contratar algum para mat-la enquanto era fcil. No sabia que a menina tinha um tio.
O medo de Bethany se transformou em dio. Contratar algum para matar Katie?! Deus do cu, o que aquele homem seria capaz de fazer?!
	Deveria ter descoberto antes de arquitetar seus planos, no , seu canalha? No esperava que Katie fosse amada por algum!
	Amada! O desgraado  um meio-irmo da me dela que pensa poder controlar a garota para se apoderar do dinheiro.
	Bruce no...
	Quanto Hallam lhe pagou?
	Nada.
	Mentirosa. Eu li seu bilhete.
	No fui eu que o escrevi. Bruce se passou pelo fotgrafo e me raptou no dia do casamento. Foi ele quem mandou o bilhete.
	Ele raptou voc?  Peter olhava para ela, incrdulo.
 No acredito.
 a verdade.
Silncio.
	Bem, se  assim...  O olhar frio do primo mostrava que raciocinava para tentar tirar alguma vantagem.  Faltam trs dias para eu completar trinta anos, e a licena decasamento ainda  vlida. Minha oferta est de p, Bethany.
	Trinta mil dlares para me casar com voc?  Bethany quase gritou. Recebia ofertas de todos os lados, e uma pior do que a outra. Meneou a cabea.  Peter, voc me disse que ningum iria ser prejudicado, que no havia outra pessoa para herdar a fortuna, e era mentira. E, entre voc e Katie, eu fico com a menina.
	Voc  maluca.  E, antes que Bethany pudesse se afastar, lhe deu uma bofetada.
Peter j tinha batido em Bethany antes. Muitas vezes. Por isso, ela nem ficou chocada. Apenas fechou os olhos, deu um passo para trs e esperou. Aprendera a duras penas que reagir com medo tornava as coisas piores.
	No h nada que voc possa fazer, Peter  falou com calma, se controlando para no passar a mo na face machucada.  Voc mentiu para mim e foi descoberto. No vou me casar, e ponto final. Pode ficar furioso  vontade. No far nenhuma diferena para mim.
Quando Bethany tornou a abrir os olhos, percebeu que o olhar de Peter no mostrava fria, e sim um malicioso triunfo.
O antigo medo voltou.
	Isso no  o fim, Bethany. Acha que fiquei parado durante esses dez dias? Que no fiz nada? Como no tinha uma lua-de-mel para desfrutar, fiquei pensando em voc, como tinha me feito passar por tolo e perder dois milhes de dlares. E em como poderia for-la a se casar comigo e se arrepender amargamente por ter me feito de idiota.
	No posso ser forada a assinar.
	Acho que pode.  Peterjogou um mao de papel sobre a mesa.  Est vendo isso?  nosso contrato de casamento, que ser realizado amanh, dois dias antes de meu aniversrio. Mas, de acordo com esse documento, j aconteceu e teve testemunhas. Ser noticiado nos jornais de sbado com a explicao de que a cerimnia foi realizada em particular.
Peter sorriu com cinismo e continuou:
	Espalhei a notcia de que voc  uma garota do campo e que uma grande cerimnia a assustou. Por isso, fugiu. Mas como me ama muito, voltou para casar-se comigo em segredo. Nosso casamento ser realizado, querida, e ningum poder nos separar, muito menos Bruce Hallam.
	Voc  louco!
	No. Sou apenas muito precavido, Bethany. Da ltima vez, eu a deixei livre para ir  igreja, mas agora no vou me arriscar. O celebrante foi muito bem pago, no s para providenciar esses documentos como tambm para, amanh, ficar fora de circulao para que ningum possa dizer que o casamento no se realizou. E tambm as duas testemunhas, que juraro por Deus terem assistido a tudo. Os papis apenas precisam da sua assinatura, e estar tudo dentro dos conformes.
	No vou...
	Vai, sim  Peter a interrompeu.  Assim que voc vir isto.
Tirou do bolso um mao de fotografias que jogou em cima da mesa.
Bethany no queria peg-las, no desejava dar-lhe esse prazer. Encarou aquele homem horrvel, que sorria, maldoso.
Voc no tem escolha, querida prima. E o que se pode chamar de assunto de vida ou morte. Olhe as fotos.
Por fim, Bethany as pegou.
Eram retratos de sua prima, Gergia Gallagher, catorze anos de idade, alegre e cheia de vida, e uma das pessoas que Bethany mais amava. Comeou a olhar, sentindo cada vez mais medo. Era evidente que Gergia no sabia que estava sendo fotografada. As fotos mostravam a garota em casa, assistindo  televiso, conversando com a me na cozinha, dormindo...
	 invaso de privacidade, Peter.  crime. Por que fez isso? 
	Continue olhando.
Bethany sentia-se gelar a cada nova retrato. A foto seguinte era de uma caixa com fusveis presa na parede externa do quarto de Gergia.
	O que voc fez, Peter?
	Ainda no fiz nada. A no ser que esteja se referindo aos medicamentos de Oliver Bromley, que mudei para apressar sua morte. Isso eu fiz, apesar de no haver meio de provar. Mas quanto a Gergia... no pus a mo em um fio dos seus cabelos... ainda. Mas...
	Mas o qu?
	Essa caixa que voc viu, Bethany,  um aparelho eletrnico de detonao com controle remoto. Detonao, prima. Suponho que saiba o que significa.
	Voc...  O rosto de Bethany estava lvido, e suas pernas ameaavam se dobrar.
	Vejo que entendeu, minha inteligente noivinha.  uma pequena bomba. Pequenina, mas muito eficaz. Voc se lembra daquele pster no quarto de nossa prima? A caixa que voc viu na parede externa do quarto, bem embaixo da janela, est conectada com um detonador atrs do pster. Nossa preciosa Gergia no ter como escapar. Por esse motivo andei ocupado nos ltimos dez dias e aprendi muito a respeito de bombas, para me certificar de que, depois da exploso, os investigadores no sero capazes de identificar nada, a no ser que houve um problema na caixa de fusveis. Pobre e querida prima. Que trgico acidente! Talvez tenhamos de encurtar nossa lua-de-mel para comparecer ao funeral. Porque voc vai se casar comigo, querida Bethany.
	Voc faria isso?  Bethany perguntou, horrorizada.
 Faria isso com Gergia?
	Eu faria qualquer coisa por dois milhes de dlares. Antes de preparar tudo, me certifiquei de que voc estaria de volta hoje. Por isso, marquei a cerimnia para amanh, para estar certo de que tudo estaria preparado. Fiquei muito nervoso por no encontr-la aqui hoje cedo. Esperei toda a manh, e voc voltou como uma querida e meiga noiva que . Portanto, Bethany, tudo que tem a fazer  assinar e, se eu fosse voc, no perderia tempo. O controle remoto  muito pequeno, e costumo ter ccegas nos dedos.
Bethany olhava para o primo, em estado de choque.
	Gergia vai para a cama s dez da noite, Bethany. At essa hora, ela estar salva. Mas eu bem que gostaria de testar meu detonador. Voc sabe disso, pois me conhece h muito tempo. Ento, seja uma boa garota e assine.
	Se eu assinar, voc destruir o detonador?
	No.  Ele meneou a cabea.  Pensa que eu sou tolo? Eu o destruo, e voc sai por a gritando que o casamento foi uma farsa. Mesmo que j tivesse consumado nossa unio, coisa que espero com ansiedade, meu advogado diz que preciso ser visto feliz, depois de completar trinta anos. Todos precisam me ver acompanhado de minha linda e apaixonada noivinha.
"Ento como ser?" Os lbios de Bethany se moveram para formular a pergunta, mas a voz no saiu. Olhou para o primo e, mesmo sem que ele falasse, j sabia qual seria o desenlace. Peter parecia contente demais para estar esperando que ela apenas assinasse um contrato de casamento.
O que aconteceria se Bethany ficasse casada com ele durante alguns dias e depois contasse ao mundo a verdadeira histria? Se pudesse provar que fora forada a se casar com Peter, o casamento seria anulado, e o primo no receberia a herana. E, o mais grave, ele tinha confessado a Bethany que apressara a morte de Oliver Bromley. Faria isso se pensasse que ela poderia contar a outras pessoas? Estava perdida.
	O que pretende fazer comigo... depois de seu aniversrio?
	Viajar em lua-de-mel,  claro. Todos os casais normais fazem isso. Amanh, seremos vistos num romntico jantar num restaurante fino de Sydney, e ento voaremos para o norte, onde embarcaremos num iate. Velejaremos no Whitsundays.  idlico nesta poca do ano.
	Voc odeia velejar.  Bethany sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
	Mas o dever me obriga.
Bethany entendeu o desfecho pelo sorriso e pelo olhar de Peter. A lua-de-mel seria trgica, porque a jovem e bela noiva morreria afogada.
	Assine os papis, Bethany.  Empurrou os documentos em direo dela.  E no tente nenhuma tolice. Possuo duplicatas, para o caso de voc borrar a assinatura, e qualquer tentativa imbecil far meu dedo acionar o detonador. Agora, assine.  E ergueu a mo para esbofete-la de novo.
O mundo pareceu parar de girar.
E ento, de sbito, tudo comeou a rodar com tanta intensidade que Bethany sentiu que ia cair. Parecia haver pessoas gritando na porta da casa... e uma voz era mais ntida que as outras.
	Toque nela e eu acabo com voc! No assine nada, Bethany! Deixe-a em paz, seu desclassificado...
Bethany virou-se e viu Bruce atravessando a sala, se aproximando e empurrando Peter para longe dela.
Era Bruce. Ao lado dele havia oficiais da polcia e outros mais atrs dele. Um pouco antes de Peter gritar, os policiais agarraram-no e o revistaram para ver se estava armado, numa ao comum em toda priso.
Em segundos, acharam um pequeno aparelho semelhante ao controle remoto de televiso, s que menor, e tambm um revlver.
Bethany estava com tanta tontura que mal se mantinha em p, mas no havia perigo de cair, pois estava amparada pelos fortes braos de seu amado Bruce, que a segurava como se ela fosse a coisa mais preciosa da vida dele.

CAPITULO XII

Quatro policiais entraram na sala. Peter parecia encolhido dentro do terno, enquanto Bethany observava tudo, sem se mover, entre os braos de Bruce.
O interrogatrio foi difcil e rpido, mas Peter se manteve em silncio. Ento, um dos oficiais ligou um gravador que reproduziu a conversa que ocorrera entre Bethany e Peter. Enquanto outro continuava interrogando-o, Peter empalidecia cada vez mais enquanto a fita rodava.
Durante todo o tempo, Bruce amparava Bethany, abraando-a com infinita ternura, com o rosto mergulhado nos cabelos dela. Prestava ateno ao interrogatrio, mas estava mais atento s reaes de Bethany.
A fita cassete rodava e rodava. A polcia havia gravado tudo o que Peter dissera a Bethany, e, no final da gravao, Peter estava to encolhido que parecia mais baixo do que era, sem cor e com aspecto de doente.
Mas Bethany no sentiu nenhuma pena dele. Permanecia junto de Bruce com a cabea encostada em seu forte e musculoso peito, trmula e horrorizada por tudo o que escutara a respeito do que Peter fizera e o que pretendia fazer.
Sabia que ele no prestava, que era uma pessoa muito m, mas no imaginava que fosse to diablico a ponto de matar.
Bruce a apertava como se soubesse que s seu corpo estava afastando-a do horror absoluto e que, se a soltasse, ela no resistiria.
Peter nunca mais chegar perto de voc. Eu juro, querida, eu juro.
Os policiais terminaram o interrogatrio e levaram Peter. O sargento que chefiava a ao se aproximou para conversar com Bruce e Bethany.
	Precisamos de seu depoimento, senhorita. Mas podemos esperar at amanh. O senhor poder levar a srta. Lister at a delegacia, sr. Hallam?
	Farei isso. O senhor tem evidncias suficientes para conden-lo?
	Oh, sim, sem dvida!  O policial riu com satisfao. 	Estamos agradecidos pela sua ajuda, sr. Hallam.
Bethany olhou-os sem entender, e o sargento continuou:
	Temos Mayberry sob vigilncia h algum tempo. Havia alguns fatos inexplicveis em relao  morte do sr. Oliver Bromley que nos preocupavam. A morte nos parecera natural e causada pela ingesto acidental de remdios, mas a demisso de todos os empregados um pouco antes do falecimento nos deixou desconfiados. No entanto, no tnhamos provas. Agora, porm, possumos uma confisso que o levar ao banco dos rus por assassinato. Depois de seu telefonema, sr. Hallam, viemos checar a srta. Lister, mas deixamos as viaturas escondidas nas imediaes. Sabamos que tnhamos um espao de tempo antes que ela chegasse, embora tenha vindo antes do esperado. Quando notamos que havia bastante vegetao ao redor da residncia, que as janelas estava abertas e poderamos nos aproximar sem ser vistos, achamos que uma gravao seria possvel e muito til. Ento, preparamos o gravador um pouco antes de a senhorita chegar, e nossos esforos foram compensados. Se pudermos deixar a srta. Lister sob seus cuidados, sr. Hallam, teremos terminado por hoje.
Bethany olhou para Bruce e no pde acreditar na expresso que viu em seu olhar.
	Sim, sargento. Eu cuidarei dela  disse, com carinho. 	Cuidarei de Bethany pelo tempo que ela quiser.
Nenhum deles notou quando os policiais se foram. S tinham olhos um para o outro.
Bruce a estreitava como se quisesse que Bethany nunca mais se afastasse dele. Suas mos, seu corpo tudo dizia mais que qualquer palavra. Alguma coisa havia mudado que fazia com que Bethany sentisse que era amada por ele com a mesma intensidade com que o amava. E, apesar da tarde cheia de horror, apesar do medo que sentira, seu corao estava repleto de alegria.
Mas havia muitas coisas que no conseguia entender e que precisava saber.
	Bruce...  Conseguiu afast-lo um pouco, mas sem se soltar do abrao.  Eu no entendo. Esta manh voc agiu como se me odiasse. Importa-se de me contar o est acontecendo?
	Achei que voc tinha entendido.  Bruce sorria e acariciava a face de Bethany, que havia sido esbofeteada por Peter.  Ele bateu em voc, aquele assassino...
Bethany ps a mo sobre seus lbios.
	No vamos falar dele. Agora no.
	Se eu tivesse chegado um minuto antes, teria impedido que ele fizesse isso. Mas a polcia queria gravar, e disseram que Peter a agrediu antes que pudessem perceber, mas que, se tentasse de novo, teriam interferido.
	Voc no estava l fora quando tudo aconteceu?
 Bethany sussurrou.  Pensei que tivesse estado o tempo ali.
	No.  Tornou a pux-la de encontro ao peito.  Dirigi mais rpido do que em toda a minha vida, mas cheguei
aqui no momento em que a polcia invadiu a casa. Se tivesse chegado antes, no teria deixado que Peter se aproximar de voc.  Passou a mo pelos cabelos dela.  Bethany, jamais tive tanto medo na vida, e, apesar disso, pensava o tempo todo que tambm a magoei... Tentei afast-la de mim e fui muito cruel... muito...
	No fale mais nisso.
	Mas  verdade. E suas acusaes eram verdadeiras.
Tinha pavor de amar. Minha Laura estava com apenas trs anos de idade quando morreu, e decidi que ningum nem nada iria me tocar emocionalmente para o resto de meus dias. No iria sofrer de novo daquela maneira. Mas Katie precisou de mim... e a apareceu voc, a suave e meiga Bethany, me oferecendo seu amor sem se importar com minha crueldade. Um pouco depois que voc se foi, recebi um telefonema dizendo que Peter estava aqui na fazenda e, nesse momento, senti que todas as decises que eu havia tomado no passado no eram mais vlidas. Nunca senti tanto pavor.
	Bruce... no entendo.
	Eu tinha um detetive particular de olho em Mayberry para saber de todos os seus passos at que ele completasse trinta anos, e havia muitas atitudes suspeitas: a visita a um juiz de paz de reputao duvidosa; as visitas secretas  casa de sua priminha tambm eram suspeitas, pois ele parecia ter uma chave.
	Peter estava plantando uma bomba...
	Agora eu sei.  Bruce sorriu.  Mas meu detetive ainda no tinha conhecimento disso. Depois da visita de seu primo ao juiz de paz, pensei que talvez ele tivesse arrumado outra noiva, mas essa hiptese foi descartada. Meu detetive o perdeu de vista, mas, alguns minutos depois de voc sair de meu escritrio, ele me ligou dizendo que eu no me preocupasse, pois Mayberry tinha ido para uma pequena fazenda onde passara a noite toda e onde ainda se encontrava. Estava aqui, e voc corria perigo.
	Ento voc veio.
	Eu viria de qualquer maneira.  Bruce encarou-a.  Depois que voc saiu, Katie veio at mim, exigindo saber por que no a tinha visitado. Disse tambm que voc nos amava e que eu era burro. Lembrei-me de seu olhar triste quando foi embora, como se eu a tivesse magoado mais do que Mayberry, e cheguei  concluso de que Katie estava certa. Eu a tinha comparado a Joane, e isso era uma completa insanidade. Devia estar fora de meu juzo. Nesse momento, o detetive telefonou, e eu soube que a tinha posto em perigo mortal.
	Bruce...
	Tive de perder tempo telefonando  polcia, mas achei que, como seu carro era lento, eu teria tempo. Deus do cu, a que velocidade voc dirigiu para ter chegado antes de mim? Ainda bem que a polcia j se encontrava no local. Eu lhes tinha dito que suspeitava que Mayberry ia for-la a se casar com ele, e lhes pedi que mandassem viaturas para garantir sua integridade fsica. A polcia j suspeitava de Mayberry. Ento, os oficiais agiram rpido e o pegaram em flagrante. Depois que falei com eles, comecei a imaginar o que aconteceria se voc se recusasse a se casar com Peter, e fiquei apavorado em pensar que eles pudessem no chegar a tempo.
Bruce tomou flego e continuou:
	Bethany, nunca um caminho me pareceu to longo. Se alguma coisa tivesse lhe acontecido... Voc me ofereceu um presente, e eu o recusei. Deu-me seu amor... No a
mereo. No mereo ningum to bonita, adorvel e com um corao to grande. Tratei-a de maneira abominvel. Mas pode me perdoar? Continuar me amando? Porque se eu perder voc...
	No!  Bethany se apoiou na ponta dos ps e beijou-lhe os lbios. Seus olhos brilhavam, cheios de lgrimas.  Bruce, como eu poderia deixar de am-lo? Para mim, am-lo  como respirar. Voc  parte de mim, Bruce Hallam, quero estar sempre a seu lado. E o homem de minha vida.
Bruce exalou um profundo suspiro e a puxou de encontro a si mais uma vez.
	Querida, meu grande amor! Vai me ensinar a amar de novo? Bethany, voc pede para que eu a ame... Se deixar, pretendo comear agora, para compensar o tempo perdido e no vou parar antes de completarmos noventa e nove anos, ou mais.
Agora no havia dvida sobre o que Bruce estava pretendendo. Os lbios dos dois se encontraram, e o beijo foi ficando cada vez mais profundo, e o desejo foi crescendo de tal maneira que no poderia ser saciado com uma simples carcia. O xtase da paixo que os unia s poderia ter um fim. Ou talvez um s comeo.
Mas havia uma coisa. Algum que.devia ser lembrado.
	Mas e Katie?  Bethany falou baixinho, quase num sussurro.  Katie est sozinha em casa? Bruce...
	No.  Bruce pegou-a no colo e foi caminhando para o quarto.  Katie est com a governanta, com meu capataz  e os outros empregados, e todos eles prometeram tomar conta dela.
	No entanto, ela ficar triste. Bruce, voc no poder ficar aqui, tem que ir!
	No tenho, no. Antes de sair, fiz uma promessa a minha sobrinha. Disse que ia procurar voc e a traria de volta como minha noiva. Prometi a Katie, e tenho de cumprir. Aceita casar-se comigo, Bethany?
Bethany no respondeu. As palavras no eram mais necessrias.
Bethany, voc est maravilhosa!
Bethany Lister olhou para a jovem prima e sorriu.
	Foi isso o que voc-me disse da ltima vez, Gergia Gallagher, quando eu estava vestida de renda e cetim. Devo acreditar?
Gergia sorriu e olhou para a prima com amor.
	Bem, da ltima vez voc usava um vestido fabuloso, Bethany. Mas hoje no  a roupa,  voc.  Aproximou-se
e afofou os cabelos cacheados de Bethany, que chegavam at os ombros.   a prima que eu amo.
O vestido era muito simples, e Gergia ajudara Bethany a escolher. Na primeira vez em que o viram, souberam que tinham acertado. Era de um fino algodo suo, com pequenas mangas que apenas cobriam os ombros; justo no busto, caa solto at os ps. Bethany no usava vu, nem outro adorno. O vestido era branco e muito bonito, mas simples como Bethany.
	E no h lugar para nenhum gamb a dentro.  Gergia deu uma sonora risada.  Mas no h nada que precise esconder.
Decerto no havia. Bethany olhou das janelas da casa de Bruce para os convidados reunidos embaixo, no jardim. No eram muitos, mas todos muito bem-vindos. Pessoas que ela, Bruce e Katie amavam.
Havia tambm alguns animais esquisitos que Edna e Fred Walter tinham trazido e, que com o passar do tempo, se tornaram domsticos.
Bethany podia ver dois cangurus, um gamb gordo e um grande pssaro branco no ombro de Fred Walter, alm dos dois cachorros de Bruce.
Enquanto ela observava, o pssaro voou do ombro de Fred e foi pousar no chapu de Madge Trotter. Todos se puseram a rir, e os dois ces comearam a latir, histricos. Sem dvida, era uma festa de casamento muito especial e diferente!
	Estamos prontas  Katie disse.  Tio Bruce tambm est pronto, e esperando.
Quando apareceram, houve um frmito geral. As duas estavam lindas. Katie, de cor-de-rosa, carregava nos braos Madeleine, uma grande boneca vestida com sua jardineira velha, e ambas, a boneca e a menina, estavam com os cabelos amarrados com laos rosa.
	Oh, Bethany, voc est quase to bonita quanto Madeleine e eu.  Katie tinha um sorriso resplandecente de felicidade nos lbios.  Mas, se quiser, pode usar meus lacinhos.
Bethany pegou a menina no colo e lhe deu um forte abrao.
	Katie Sininho, essa foi a melhor oferta que j recebi em toda a vida, mas Gergia  de opinio que meus cabelos devem ficar livres e soltos.  Ps a menina no cho outra vez.
	E verdade, Katie. Nossa Bethany  assim. Um esprito livre. No concorda?
Katie ficou confusa e repetiu, indecisa:
	Livre? Isso quer dizer que tio Bruce tem de deix-la ir?
Bethany riu, pegou a mo da menina e foi ao encontro dos convidados.
L estava Bruce, de p, perto do altar que haviam montado numa das extremidades do jardim, com o rosto feliz e sorridente. Usava um terno preto e estava to lindo e magnfico quanto a noiva. Era o seu Bruce...
 No, Katie, isso no significa que voc e Bruce tero de me deixar ir embora  Bethany sussurrou, apertando a mo da garota e encarando o noivo.  Porque, como todas as criaturas livres que conhecem seu prprio lugar, eu tambm sei onde  o meu lar. O lar  onde o corao est, Katie Sininho. Meu lar  aqui.

FIM
